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Diario da Croisette (12)

Luiz Carlos Merten

19 de maio de 2013 | 16h53

CANNES – Ateh agora estou tentando entender o que achei de Borgman, o concorrente holandes de hoje pela manhah. Eh verdade que tive de abandonar o filme de Alex van Warmerdam nos minutos finais, mas foi por uma boa causa, as entrevistas com Jia Zhang-ke e Bernardo Bertolucci. Borgman eh sobre um sujeito que invade uma casa burguesa e promove um banho de sangue. Como se chamava aquele filme do Michael Haneke? Funny Games? Eh conto da carochinha perto do de Varmerdam. Corri para a coletiva dos irmaos Coen, soh para ouvi-los confirmar que o incidente do gato eh essencial em Inside Llewin Davis (como pensava) e depois nao parei de emendar entrevistas – com Asghar Farhadi, Arnaud Desplechin, Benicio Del Toro etc. Bertolucci, preso a cadeira de rodas, usava um chapeu meio desabado sobre o rosto que parece o mesmo da epoca da rodagem de Ultimo Tango em Paris, mas ele estah aqui porque mostrou ontem a versao restaurada – convertida para 3-D – de O Ultimo Imperador da China. Nao consegui ver o filme inteiro, mas ateh brinquei com Bertolucci – embora a decisao de passar o filme para 3-D nao tenha sido dele, a verdade eh que o diretor antecipou o recurso hah quase 30 anos. A cena em que o imperador menino corre atras da bola ficou ainda mais deslumbrante com a profundidade da terceira dimensao. E consegui fazer com que Bertolucci falasse da China que conheceu e filmou, e dessa outra China capitalista e globalizada que Jia Zhang-ke filma agora. Bertolucci ainda nao viu A Touch of Sin, o novo Jia, mas disse que ama o autor chines e seus planos sequencias que definiu como `densos`. Sobre Asghar Farhadi, tenho de confessar que fiquei com pena de nao ter gostado de O Passado – a entrevista foi muito boa, melhor que o filme, e eu consegui faze-lo falar bastante sobre roteiro, mise-en-scene, sobre dirigir criancas – e tambem sobre a Paris de seu filme, que nao tem nada de cartao postal. Farhadi estah vivendo em Paris hah dois anos e era questaoh de honra para ele evitar o clicheh das paisagens `turisticas`, em que os estrangeiros invariavelmente caem ao filmar cidades  que nao conhecem tanto, vejam o proprio Woody Allen em Paris e Roma (embora ele assuma esse olhar cliche e ateh tire proveito dele). Fiz mais entrevistas, redigi meus textos para o Caderno 2 de amanhah e as 7 da noite, daqui, jah estava no palais para ver a versao restaurada de A Rainha Margot. Patrice Chereau era esperado, mas nao veio (tem compromissos importantes amanhah pela manhah em Paris, pelo que entendi exames medicos). Foi representado pelos produtores, pela roteirista Daniele Thompson e pelo ator Vincent Perez, em nome de todo o elenco. Vincent falou com grande carinho do grande diretor – `meu mestre, meu mentor`, como disse. Contou como Chereau mergulhou fundo na aventura e um dia ele se lembra de que o cineasta veio transtornado em sua direcao e tombou, exausto, sobre ele, deixando a equipe aa beira de um ataque de nervos de que ele pudesse estar tendo um infarto. Nao `guentei` e fiquei vendo o filme. O que eh aquele comeco, com a cena de casamento de Marguerite de Valois com o rei de Navarra, seguido da festa nos jardins do palacio, em que toda a nobreza parece repetir a festa do principe Salinas, soh que aqui estah todo mundo no cio – e Isabelle Adjani e Dominique Blanc sao punks trocando informacoes sobre homens (e catolicos e huguenotes na cama). O silencio mortal que se segue aa pergunta do arcebispo – se ela aceita se casar – eh seguido pelo lamento da solista na trilha de Goran Bregovic e pela acao brutal do rei, Jean-Hughes Anglasde, que bate com a cabeca da irma no altar em que ela estah ajoelhada. A violencia fisica de Chereau, o seu antropomorfismo – a camera ligada no corpo dos atores, como em certos Viscontis. Nao sei sinceramente se O Ultimo Imperador e A Rainha Margot terao (re)lancamento nos cinemas, mas voces ja podem pressionar o Festival do Rio e a Mostra de Sao Paulo para que levem esses classicos. Soh para deixa-los babando… Sabem quais sao as atracoes de amanhah de Cannes Classics? Eu conto. Violencia e Paixao, o ultimo grande Visconti (digo grande mesmo, porque O Inocente eh `soh` muito bom), que serah seguido por… Hiroshima, Meu Amor. Viraoh Alain Resnais, Emmanuelle Riva? Meu coracao jah bate descompassado.

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