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Diário da Croisette (11)

Luiz Carlos Merten

18 de maio de 2013 | 21h44

CANNES – Tiago Stivaletti diz que eu não entendo o humor judaico dos irmãos Coen e vou conceder que ele tenha razão. Até gostei da cena inicial do novo filme deles, Inside Llewin Davis, que se passa num café de Nova York, em 1961, mostrando uma apresentação do artista folk do título. Mas logo Ethan e Joel começam a exibir seus truques – e o mais notório deles é sempre tratar seus personagens, principalmente a galera secundária, como boçais, de forma a que o público se sinta mais inteligente. Ainda bem que os Coen sãso artistas de ficção. Se fossem documentaristas, todo mundo ia discutir a ética, ou falta de, dessa ridicularização do outro. E tem a história do gato, que eu não vou contar qual é, mas de cara deu para perceber o que era e quando veio a piada e o público riu, eu pensei com meus botões que era bem clichê, mas clichê dos Coen, e isso é chic. O filme é um road movie – bem, pelo menos em parte – e pega carona no On the Road de Walter Salles, escolhendo o ator que fazia Neal Cassidy no filme do brasileiro. Honestamente, Inside Llewin Davis vai do nada para o lugar nenhum, com um personagem que começa apanhando e masoquistamente se oferece para tomar porrada de novo, no desfecho. A melhor piada, mas não sei se é piada, é que o protagonista antecipou um certo Bob Dylan e, no final, quando deixa o palco, quem está se apresentando? Pois é… O gato, by the way, chama-se Ulisses, e não é de hoje que os Coen se interessam pela Odisseia. Na saída dos Coen, Tiago, Neusa Barbosa, Mariane Morisawa e o Carlos Eduardo foram jantar. Eu ia junto, mas resolvi arriscar tentando ver o Alejandro Jodorowsky na Quinzena dos Realizadores, Dei sorte e consegui entrar, mas o que me impressionou foi o que para mim já entrou no domínio do sobrenatural. Nas sexta, por exemplo, não havia nada que me atraísse para L’Inconnu du Lac, mas fui ver o filme, do qual gostei, e terminei participando da standing ovation para Michel Piccoli. Hoje, tudo bem, queria ver o Jodorowsky, mas terminei testemunhando uma coisa que, para mim,, foi emocionante. Não há cinéfilo que não conheça Nicolas Winding Fern, diretor do cult Drive, com Ryan Gosling. ‘Nic’ está aqui com seu novo filme, Only God Forgives, novamente com Ryan e agora Kristin Scott Thomas, como a mafiosa mãe dele. Pois bem, estava lá no Théâtre Croisette para ver La Danza de la Realidad (o Jodorowsky), quando foi anunciado – Ladies and gentlemen, Nicolas Wending Fern. Pensei comigo – o quer este cara está fazendo? A moçada quase botou a saslas absaixo com seus aplausosd. O próprio Nicolass respondeu em seguida à minhas pergunta (interior), dizendo que era um privilérgio estar sli para apresentar um homem, um artista como um dia ele gostaria de ser, mas – admitiu – nunca será. Nicolas errou no nome, ou não consegue dizê-lo (no seu inglês dinamarquês), Aleandro Jodorsky. E subiu Alejandro, acompanhado de dois caras, seus filhos – Brodis Jodorowsky faz o protagonista, e é a história do pai do diretor, e Adam Jodorovsky, autor da trilha. O filme tem um lado de realismo mágico latino muito forte, e ao mesmo tempo incorpora lições de alegoria do Cinema Novo, com direito a Bachianas e tudo. Pode parecer desgastado, muito poncho y conga, mas eu viajei na história do pequeno Alejsandro, pai da próprias mãe, e do efeito que isso provoca em seu pai. Se o filho é mulherzinha, e o pai faz dele um homem na porrada, psai é um stalinista que trata a família de forma totalitária e não tem nenhuma compaixão pelos freaks, sem braços nem pernas, cujas deformidades foram produzidas pelas explosões nas minas chilenas. Existem toques de Tod Browning, de Federico Fellini e Georges Bataille (que também foi o inspirador de L’Inconnu du Lac). Jodorowsky cria cenas que me encantam pelas ousadia, ou provocação – o pai, como bom comunista, é um ateu radical, que tenta matar Deus no imaginário da mulher e do filho, mas quando ele contrai a peste a mulher reza ao Senhor, pedindo que Ele verse sua água purificadora através dela. Como? Sara – é seu nome – monta sobre o marido, tira a calcinha e urina sobre ele, uma boa mijada sem artifício nenhum. Alguém poderá objetar que é escatologia. Abaixo o bom-gosto e o masis curioso, para mim, foi que o estilo anárquico e delirante de Jodorowsky tem muito de… Edgar Navarro. Eu Me Lembro e O Homem Que não Dormia são, esteticamente, gêmeos  de La Danza de la Realidad. Isso só rerforça o preconceito de Cannes contra o cinema brasileiro. Se Jodorowsky pode estar aqui, e cultuado por Nicolas Wending Fern, por que não o Navarro?

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