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Diário da Croisette (10)

Luiz Carlos Merten

18 de maio de 2013 | 07h35

CANNES – Gostei bastante do novo Arnaud Desplechin, Jimmy P, que se baseia no livro do antropólogo Georges Deveraux, publicado em 1951. Jimmy P tem um subtitulo, Psicanálise de Um Índio da Planície. Conta a historia da relacao entre um indio que voltou traumatizado da 2.a Guerra e o antropólogo europeu que o ajuda, por meio da palavra, a se curar da dor de cabeca que o aflige. De novo a fascinação européia pelos gêneros tradicionais de Hollywood, no caso, o western, mas filtrada pelas preferências do autor. Durante boa parte do filme o proprio Benicio Del Toro, que faz o índio, e faz muito bem, se pergunta se não estará louco, mas Desplechin não leva a discussão por aí. É muito interessante como o filme dele, quase sem conflito, se constrói por meio da palavra, numa mise-en-scène que se diria digna de Joseph L. Mankiewicz (o famoso dinamismo dos diálogos). Em sucessivas entrevistas, Mathieu Amalric já disse que sempre quis ser diretor. Que tenha virado ator, foi uma invenção de Desplechin. Ele faz o antropólogo e o filme se abre em leque – tem a relação do índio com a irmã, com a mãe, a ex-mulher, a filha, a guerra, a bebida. O proprio Devereaux, o antropólogo, tem uma amante francesa casada que irrompe no hospital em que ele trata seu paciente. Só que, ao contrário de Asghar Farhadi, Desplechin não perde o foco do que está querendo dizer – e a questão da identidade é essencial em seu cinema. Não creio que Jimmy P seja para muitos gostos. Os aplausos foram comedidos, a sala não lotou na coletiva. Não faz mal. Anotem o título e depois me cobrem, se for o caso.

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