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Diário da Croisette (1)

Luiz Carlos Merten

15 de maio de 2013 | 11h30

CANNES – Cá estou, desde ontem. Cheguei a tentar  adar uma geral na Croisette, com todos aqueles outdoors de filmes que, daqui a pouco, estarão ocupando as telas de todo o mundo. Não consegui me conectar ontem e hoje emendei uma coisa na outra – a sessão de O Grande Gatsby, a coletiva do filme de Baz Luhrmann, a coletiva do júri. Vamos por partes, mas antes de começar – com o filme de abertura – permitam-me contar, para manter o tom confessional de diário do blog, que, pela manhã, ao sair do hotel, estava atrasado e chovia. Corri feito doido e, numa curva de esquina, dei uma derrapada no piso molhado e caí, espetacularmente. Juntou um monte de gente, todos preocupados com o pobre velhinho. Não sei como não me quebrei. Fiquei todo dolorido depois, mas vamos em frente. Descobri, finalmente, por que Luchino Visconti queria tanto contar a história de Scott Fitzgerald e Zelda e quem me contou, por meio de seu próprio  filme, foi `Baz`. Visconti tinha até os atores para os papéis, que queria que fossem Warren Beatty e Julie Christie, no tempo em que viviam juntos. Como o Marcel Proust viscontiano, Em Busca do Tempo Perdido – o volume que ele queria era Sodoma e Gomorra, o mais realista, com um perfume de Balzac -,  Scott e Zelda, que era como o filme de Visconti ia se chamar, nunca se concretrizou, até Baz Luhrmann fazer o `seu` Gatsby. Lembro-me de que, quando o entrevistei no Rio, Baz me disse que eu havia sido o único jornalista, no mundo!,  a fazer a ponte entre Moulin Rouge e Rocco e Seus Irmãos, que ele também ama. There was a boy, a very strange enchanted boy. Não seria esta uma definição para Rocco, o idealista interpretado por Alain Delon? A dúvida é agora sobre quem o enchanted boy virou? Jay Gatsby ou o narrador da história, Nick? Um  silêncio de morte seguiu-se ao fim da sessão de O Grande Gatsby. Como sempre, houve uma debandada, muita gente saiu correndo para o próximo compromisso. Eu fiquei até o fim. Bem no finalzinho, aplausos. Scott escreveu O Grande Gatsby aqui pertinho, em San Raphael, e enquanto ele terminava a great american novel, Zelda, sua mulher, o traía numa praia não muito distante de onde está agora o palácio do festival. O ano era 1924 e o escritor enviou a seu editor uma nota em que dizia ter consciência de haver escrito seu primeiro romance realmente pessoal. Scott era autodestrutivo, Zelda foi o seu abutre, puxando-o para baixo. Ernest Hemingway, que se dizia amigo de Fitzgerald, escreveu um texto duro sobre a ligação do casal, mas sem o abutre duvido que Scott Fitzerald tivesse escrito seus textos admiráveis. Jay Gatsby forja uma persona, uma identidade, uma fortuna por amor a Daisy. Cria um mundo de sonho para tentar seduzi-la, mas Daisy, como sonho, é inatingível e ele morre na tentativa. Ela nem tem consciência do mal que causa. O filme tem uma primeira parte que é puro Moulin Rouge – cinema do artifício. Na saida, ouvi muitos coleguinhas dizendo que Baz Luhrmann ja fez aquilo, e melhor, o que confesso que achei curioso, porque nao me lembro de muitos críticos elogiando o musical com Nicole Kidman. O que me lembro é de muita gente me chamando de louco, por defender o filme. Quer dizer que agora gostam? Entendi. Depois da primeira parte cheia de fogos de artifícios, vem a segunda, dura como aço, e cruel. Leonardo DiCaprio tem aquela cara de bebê. É perfeito no papel. Durante todo o tempo, dissimula suas emoções. Pobre menino rico – o pobretão no ninho dos poderosos. Ele pode adquirir o dinheiro, mas não a linhagem. Tom Buchanan e Daisy passam como rolos compressores sobre ele. Só quem  sabe disso somos nós – o público, Nick, o narrador, Scott o escritor (e Baz, o cineasta). Se vocês me perguntarem se gostei de O Grande Gatsby, não tive uma paixão fulgurante como a que senti por Moulin Rouge – e até escrevi um livro, Cinema – Entre a Realidade e o Artifício, movido pela paixão. Mas Gatsby me perturbou, ficou comigo. A trilha é uma coisa de louco. Muita gente fazia comparações estapafúrdias com o livro, depois da sessão. Coisa de quem, obviamente, não leu Scott Fitzgerald, ou o leu superficialmente. Foram feitas perguntas demais para Leo na coletiva. Nada do que ele disse acrescentou, de verdade. Eu acho, eu acho, eu acho. Baz Luhrmann tinha no set especialistas em Fitzgerald. Talvez nem precisasse. Viscontianamente, ele entendeu a tragédia de Gstsby. O desencanto, a derrota, a decadência. O problema não é de onde vem o dinheiro de Gatsby, mas se ele, afinal, é um homem ético, um bom homem. O 66.º Festival de Cannes começou. Uma maratona de 12 dias que todo cinéfilo, tenho certeza, me inveja por cobrir há mais de 20 anos. Mas é a boa inveja. Vou tentar ser os olhos e ouvidos de vocês nesta Croisette.

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