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Diário da Berlinale Dia 7

Luiz Carlos Merten

26 de fevereiro de 2020 | 21h36

BERLIM – Na terça à noite, 25, deveria ter comemorado o aniversário de Elaine Guerini, mas fui ao restaurante errado e perdi a festa. No dia 17, teria sido o aniversário de minha irmã, Marlene. Dia 23, a Lúcia; 25, a Elaine. Salve fevereiro. De novo o dia começou ontem, com o russo DAU Natasha, de Ilya Khrezhanovsky e Jekaterina Oertel,a história de uma mulher num centro secreto de pesquisas russo. Ela fala demais – sobre sexo, afeto. Termina cometendo indiscrições, a segurança intervém.
Competição
O DAU do título é para indicar que se trata de um projeto múltiplo, não apenas de um filme. A duplas de diretores construiu umas vila ucraniana na França, incluindo o centro de pesquisa. Convocou russos exilados, não profissionais, e armou um experimento. O filme é forte, feito com cenas longas que dão a impressão de se repetir. E é violento, muito violento. Pelo menos no cinema – mas não apenas, sabemos – a Rússia de Vladimir Putin me mete medo. Os filmes de Sergei Loznitsa, agora o de Khrzezhanovsky e Jekaterina, fortalecem essa visão apocalíptica. A Rússia pós-comunista continua autoritária, antidemocrática, mas quem liga? Em nome do anticomunismo, como do antipetismo no Brasil, as pessoas aceitam tudo.
Na manhã desta quarta, passou o Berlin Alexanmderplatz do teuto-afegão Burzan Qurbani. Em 1980, o romance cultuado de Alfred Doblin sobre a decadência da República de Weimar e a gênese do nazismo, já havia inspirado uma série de TV de Rainer Werner Fassbinder, com 14 episódios e mais de 15 horas de duração. Qurbani fez um filme de pouco mais de três horas – 183 minutos -, com cinco capítulos e um epílogo. Transpôs a ação para a atualidade – Franz agora é Francis, um imigrante africano que descobre seu lado mais escuro em Reinhard e inicia com ele uma carreira na criminalidade. Ao mesmo tempo que destrói aqueles a quem ama, Francis/Franz sonha em ser uma boa alma, um homem decente. Franz é um ator de língua portuguesa – de Portugal -, Welker Bungué. Gostei demais dele, do filme, mas tenho de admitir que o novo Berlin Alexanderplatz está longe de ser uma unanimidade. Gostei do roteiro, da forma como condensa o livro e torna verossímil a curva dos protagonistas. Só para efeito de comparação, é bom saber que a Criterion lançou uma edição de luxo, de colecionador, do Fassbinder.
Em geral, não sou entusiasta do cinema de Sally Potter, mas gostei menos ainda de The Roads Not Taken, inspirado numa doença degenerativa do irmão da diretora, nem Parkinson, nem Alzheimer, mas que devora noções de tempo e memória das pessoas. Gostei do elenco – Javier Bardem, Elle Faning, Salma Hayek, Laura Linney -, mas o filme tem de ser muito ruim para eu não ter viajado na relação pai/filha. Ellen tem uma dedicação absurda a esse pai, Bardem, que a abandonou na infância. O filme é sobre ela, que projeta a sofrida experiência da diretora. Entrevistei Bardem à tarde. Conversamos sobre o filme, claro, mas também sobre Cortez, a minissérie da Amazon sobre a conquista do México da qual é o protagonista. Cortez desembarcou no México com seus soldados e 16 cavalos. Os astecas, que nunca visto aqueles animais, tomaram-no por deus e se deixaram destruir. A derrocada de um império. Bardem passou dois meses tomando aulas de equitação, mas só agora admite que tomou gosto pelas cavalgadas.
Seções paralelas
Depois de entrevistar Javier Bardem e fazer as matérias de amanhã, do Caderno 2, corri ao Zoo Palast para ver Vento Seco, que emendei com Vil, Má. O primeiro, de Daniel Nolasco, no Panorama e o segundo, de Gustavo Vinagre, no Fórum.Vento Seco, de Goiás, antecipa-se como forte candidato ao Urso queer, o Teddy Bear, que o Brasil tem recebido com certa frequência. Daniel não é mole. Promove o maior desfile de genitália masculina, e já que os pênis estão ali, eretos, prontos para o combate, parte para ação. Delírios fetichistas, sexo oral, anal. Sandro e Ricardo trabalham na mesma fábrica de grãos. Findo o expediente, encontram-se no mato para brincar. A chegada de Máicon desestabiliza a relação. E tem a amiga trans, que tenta organizar a classe trabalhadoras na fábrica. No desfecho, Maria Betânia invade a trilha com sua versão de Negue, no álbum Álibi. Poderosa! Achei o filme forte, os atores corajosos, mas imagino, realisticamente, que o filme terá uma carreira difícil nesse Brasil conservador. Saí do Zoo e fui para o Delphi, outro Palast do festival. Após seu magnífico A Rosa Azul de Novalis, Gustavo Vinagre conta agora a história de uma dominatrix em Vil, Má. O imaginário sado-masô, uma mulher e seu pseudônimo. O que é real, o que é imaginação? Esse Gustavo é outro que nasceu para sacuidir o público e o cinema brasileiro. Agora tenho de descansar. Daqui a pouco tem mais (homos)sexo – na competição, com Tsai Ming-liang.

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