As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário da Berlinale Dia 6

Luiz Carlos Merten

25 de fevereiro de 2020 | 13h39

BERLIM – Na verdade, o dia 6 começou na noite do 5, quando assisti a Never, Rarely, Sometimes, Always, de Eliza Hittman, premiado em Sundance – pergunto-me se Guilherme Sobota terá visto no filme quando esteve no festival de Robert Redford? E aqui um parêntese. Antes de Berlim, passei alguns dias em Lisboa. Achei não só a capital, mas Portugal inteiro com um astral muito mais elevado e sinais de uma prosperidade que não era possível entrever há alguns anos. Mais que tudo – naqueles dias, semana passada, havia um congresso da Central de Trabalhadores de Portugal, que elegeu nova diretoria (de esquerda). Assistia diariamente, nas TVs – em todas! -, aos discursos dos representantes de trabalhadores. Direitos, direitos, direitos – críticas ao globalismo, ao neocapitalismo liberal, tudo na contracorrente do Brasil da ‘modernidade’ de Jair Bolsonaro. E mais. Um episódio de racismo no futebol levou a protestos da sociedade inteira – do presidente ao homem das ruas. No Brasil, a ofensa vem do alto – contra mulheres, negros, gays, e fica por isso mesmo. Para completar, Portugal aprovou o aborto, algo impensável nesse Brasil que de laico não tem mais nada.
Competição
Lembro isso porque o filme de Eliza é sobre uma garota que sai do interior de Massachusetts com uma amiga para abortar em Nova York. Produção indie, feita de meios tons, nada é tudo – amei. Ainda me recuperava do upgrade do festival com Never, Rarely, Sometimes, Always, quando veio na manhã de hoje o Hong Sangsoo. Sorry, gente, mas é o meu (sul)coreano preferido, na contrapartida do cinema de gênero de Bong Joon-ho e Park Chan-wook, e olhem que gosto bastante dos dois. Hong faz filmes minimalistas que parecem sair sem o menor esforço. Só gente bebendo e conversando, filmada de maneira direta. As pessoas, principalmente as mulheres, continuam conversando em The Woman Who Ran, A Mulher Que Correu (Fugiu?), mas dessa vez ninguém bebe em cena. Outra novidade – a zoom, que Hong dispara com certa frequência para substituir o travelling. O tema – o amor, os sentimentos. Questões de gênero, de sexo. Kim Minhee vive repetindo que o atual marido, com quem está casada há cinco anos, é do tipo grudento. Quem ama tem de ficar junto, 24 horas por dia. As outras mulheres duvidam, e quando uma pergunta a Kim se é recíproco, se ela ama o marido, Kim não sabe responder. O reencontro com o ex lhe causa perturbação e o que ela diz pode não ser bem o que está sentindo. Hong fez um filme que escava essa superfície ligeira para chegar ao fundo. Cinema de relações, mas muito mais denso e profundo que no filme alemão, por exemplo – My Little Sister. E a questão social se faz presente, sutil, bem diferente do Bong (e até do Lee Chang-dong de Em Chamas). Se o festival terminasse agora, Hong levaria meu Urso. Preciso parar. Tenho de correr para ver o Fellini restaurado – A Trapaça.

Tendências: