As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diálogos sobre cinema na MIT

Luiz Carlos Merten

18 Março 2017 | 13h17

Tenho ido à MIT, Mostra Internacional de Teatro. Dib Carneiro e Orlando Margarido têm sido meus companheiros. Na quinta, vimos Revolução em Pixels, a aula magna (conferências não acadêmica) do libanês Rabih Mroué, e na sexta, Por que o Sr. R Enlouqueceu? A diretora Susanne Kennedy se apropria do filme de Rainer Werner Fassbinder. Foram experiências díspares e muito interessantes. Além de o que é o cinema, vou ter de me perguntar, a toda hora, também, ‘o que é o teatro?’ Com base nas imagens que os protestos na Síria colocaram na internet, Mroué levanta questões complexas e revelantes. Vai à fonte do Dogma, dos monges cineastas dinamarqueses, e estabelece um decálogo sobre como documentar esses eventos. Fez rir a plateia – disse que os procedimentos valem para protestos em São Paulo. Só uma tergiversaçãozinha. Não existe, atualmente, atividade cultural no Brasil sem ‘Fora, Temer’. Na abertura da MIT – não estava, mas me contaram -, nenhuma autoridade (todos homens) esteve presente, mas se fizeram representar… por mulheres! Temer virou alvo de xoxota internacional, perdão, chacota, por seu discurso sobre a mulherzinha (dele) no 8 de março. E todos esses secretários de Cultura que tinham tantos compromissos – conspirando contra quem? – que não tiveram tempo de ir à MIT, que, afinal de contas, não deve ter importâncias nenhuma (só pode ser o que pensam). Querem as benesses, mas não a vaia. Cambada! Shoot, em inglês, tanto pode ser disparar (a bala do revólver) quanto filmar. Rabih Mroué faz ilações conceituais muito instigantes sobre snipers e manifestantes que se filmam. Que filmam a própria morte. Não creio que Revolução em Pixels seja ‘teatro’ – certamente não teatro clássico -, mas saí cheio de questões da sala do Sesc Vila Mariana. Ontem, foi divertido. A plateia do Sesc Pinheiros enlouqueceu antes que o sr. R. Eu mesmo tive um surto de tosse – ainda não estou zero bala depois de Berlim -, e foi muito desagradável. Nunca ouvi tanto ranger de poltronas. Sr. R é de um rigor absoluto. Ia escrever – absurdo. Faz sentido. Tanto e até mais que Fassbinder, as referências de Susanne Kennedy talvez sejam Samuel Beckett e… Wes Anderson! Um elaborado mecanismo de cenário e projeção (e ainda tem aquela TV ligada). Atores com seus rostos deformados por máscaras. Um teatro da contenção física, da rigidez formal, um pouco, mas diverso, como faz Roberto Alvim no Club Noir. Sr. R desenvolve-se por meio de cenas – No escritório, Na rua, No bar, Na loja de discos etc -, mostrando o progressivo processo de alienação de um homem que, no final, ao enlouquecer, parte para a violência. Talvez seja um pouco longo – mais de duas horas. Mas é biscoito fino.