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Dez que fizeram história

Luiz Carlos Merten

28 de dezembro de 2015 | 14h42

Meu editor, Ubiratan Brasil, pediu que enviasse uma lista de dez filmes importantes para fechar hoje a série do Estado online sobre os 120 anos do cinema. Durante um mês, desde 28 de novembro, a edição virtual publicou galerias que ajudavam a contar a história dessas 12 décadas. Enviei a lista pedida, com a ressalva de que não é uma lista dos dez melhores filmes de todos os tempos – Rocco teria de estar -, mas de filmes que fizeram avançar a linguagem e a política, a arte e a indústria do cinema.

Nascimento de Uma Nação, de David W. Griffith, 1915

Numa época em que os filmes duravam de 3 a 18 minutos, Griffith ousou fazer uma epopeia de mais de três anos contando a história de duas famílias na Guerra Civil dos EUA. Racista como é, o filme criou o bê-a-bá da narração e deu intensidade dramática à noção do corte. Alain Resnais e seus conflitos de tempo e espaço nascem daqui.

Em Busca do Ouro, de Charles Chaplin, 1925

Carlitos tenta triunfar sobre a adversidade em plena Corrido do Ouro. A obra-prima muda de Chaplin não só continua engraçadíssima como possui efeitos que resistiram ao tempo. Em geral, os filmes dele eram narrados com planos frontais. Aqui, há uma diversidade maior e a natureza participa. A avalanche atinge o herói e a cabana treme, sustentando-se sobre o abismo. Uma metáfora sobre a dificuldade de viver?

Rainha Cristina, de Rouben Mamoulian, 1933

O cinema já era sonoro quando Mamoulian fez sua versão da história da rainha sueca que renuncia ao trono por amor. Garbo é sublime e o filme incorpora recursos como íris e travellings de aproximação e afastamento. A cena da estalagem, com a descoberta do amor, prenuncia Hiroshima, Meu Amor.

No Tempo das Diligências, de John Ford, 1939

O primeiro grande western narra os dramas dentro da diligência e os alterna com o mundo lá fora – a paisagem, os índios. A prostituta e o bandoleiro são hostilizados mas têm mais grandeza que os representantes da boa e hipócrita sociedade. E a dimensão do cenário varia conforme o relato, o que prenuncia Cidadão Kane.

Cidadão Kane, de Orson Welles, 1941

Magnata da imprensa morre e lança um enigma. O que significa a palavra Rosebud, que ele acaba de pronunciar? Relato em flash-back, com diversos pontos de vista, dimensões do cenário, dissociação de imagem e som. Tudo isso já havia, mas não reunido como aqui. Por décadas, Kane disputou com O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein – a célebre cena da escadaria de Odessa –, o título de melhor filme de todos os tempos. Na mais recente votação, só Kane ficou entre os dez, mas não é mais o primeiro, posto ocupado por Vertigo/Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock.

Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini, 1946

Na Itália derrotada pela guerra, Rossellini resolveu fazer uma crônica da resistência ao nazi-fascismo. O cinema como renascimento, uma nova narrativa – um novo realismo? -, mais pobre, talvez, mas comprometido com o humano. Um filme que repercutiu em todo o mundo e foi absorvido como símbolo de cinema possível em diversas latitudes.

O Cangaceiro, de Lima Barreto, 1953

O primeiro filme brasileiro a realmente adquirir prestígio internacional. Embora o Nordeste da ficção seja falso – o filme foi concebido como um western e feito no interior de São Paulo -, ganhou o prêmio de aventuras em Cannes e Muié Rendera virou a trilha daquele ano, com versões em todo o mundo.

Os Incompreendidos, de François Truffaut, 1959

Como Rossellini, inventando o neo-realismo, Truffaut e seus amigos da nouvelle vague mostraramn que um outro tipo de cinema, mais autoral, era possível. O começo da saga de Antoine Doinel, o próprio diretor, que cresce rebelde e mal-amado. O final na praia antecipa Glauber, Deus e o Diabo. O encontro com o mar…

2001, Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, 1968

Nunca houve antes uma ficção-científica como a de Kubrick. A evolução humana, da pré-história à tecnologia do futuro. O mistério do monolito negro. Narrado como um documentário, o filme ganhou uma versão fliperama, Star Wars. A saga continua no Episódio VII, O Despertar da Força…

Titanic, de James Cameron, 1998

Êxito planetário que ultrapassou, quando isso parecia impossível, a barreira do bilhão de dólares, o filme usa o episódio do célebre naufrágio para questionar a técnica. Love story, luta de classes, o jovem Leonardo DiCaprio, Kate Winslet. O mundo todo ficou preso na magia dessa história. De certa forma, uma exceção na carreira do diretor, sempre tão interessado pela ficção científica – O Exterminador do Futuro, Avatar.