As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Dez dias que abalaram o mundo

Luiz Carlos Merten

07 de agosto de 2019 | 23h08

Encontrei Orlando Magarido numa cabine na manhã desta quarta-feira – do belíssimo filme de Ciro Guerra e Cristina Gallegos, Pássaros de Verão -, e ele destruiu minhas expectativas. Disse que viu Tel-Aviv em Chamas no Olhar, em Curitiba, e lhe pareceu uma comediazinha muito chinfrin. De qualquer maneira não teria conseguido ver o filme no Festival Judaico, às 8 da noite, no MIS, porque saí tarde do jornal. Já disse que não anda fácil dar conta de tantos lançamentos nos cinemas de São Paulo e tantos eventos que estão ocorrendo paralelamente. E a coisa não pára – na quarta que vem, 14, teremos a festa do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro no Teatro Municipal de São Paulo, na sexta, 16, a abertura do Festival de Gramado – com Bacurau e Sônia Braga – e na sequência o Cine Ceará, com o filme do Karim Ainouz premiado em Cannes – A Vida Invisível de Eurídice Gusmão -, também na abertura. Anna Luiza Müller, que faz a assessoria, tem me exortado a ir, e eu, que amo Karim, seus filmes, especialmente Praia do Futuro, fico tentado a acompanhar seu triunfo in loco, em casa. A todas essas. me parece bizarro que o Telecine Cult esteja apresentando agora o Outubro de Sergei M. Eisenstein. Como O Encouraçado Potemkin, de 1925, trata-se de outra peça de propaganda, para comemorar os dez anos da revolução de 1917. Dessa vez, centra-se no processo pelo qual os bolcheviques tomaram o poder do governo provisório de Kerensky, e esse último é retratado como um neurótico sedento de poder, aliado aos social-democratas que ignoram o povo e seus anseios na Rússia do começo do século passado. A burguesia é caricaturada e o filme tem um ritmo que hoje seria de videoclipe, embora se trate de obra muda, à qual a trilha foi incorporada depois. Eisenstein, grande teórico da montagem, sempre acreditou no cinema como a arte de organizar imagens no inconsciente do público, de forma a conscientizar as massas para o evento que considerava o maior de todos – a tomada do poder pela classe trabalhadora. Operários, uni-vos! Por meio de uma montagem acelerada, ele não apenas nos projeta na excitação da revolução, como alterna/intercala imagens de seus personagens com outras que são simbólicas. O bolchevique apanha até a morte dos burgueses decadentes, o cavalo morto, que representa os trabalhadores, é erguido no ar, etc. Dez dias que abalaram o mundo, para pegar carona no livro de John Reed, e as cenas em que a multidão invade o palácio de inverno não perderam nada de sua força. O curioso é que, apesar de toda a militância do cineasta, seu filme desagradou às autoridades do regime comunista. Eisenstein foi acusado de formalismo e ainda teve de eliminar o profeta Trotsky do filme, porque tudo o que Stálin não queria, ao se consolidar no poder, era ter de dividir louros com ele.

Tendências: