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Devo uma ao Hector

Luiz Carlos Merten

14 Julho 2016 | 15h21

Havia planejado rever hoje A Lenda de Tarzan, na segunda cabine de imprensa do longa de David Yates. Meu amigo Dib Carneiro me havia dito que esse vai ser um daqueles filmes que vou ver ‘n’ vezes. Pode até ser – mas não foi hoje que revi. A morte de Hector Babenco me atropelou. Tive de escrever um texto correndo para o portal, uma galeria de fotos. Vim para a redação e gravamos, o editor Ubiratan Brasil e eu, um especial na TV Estado que foi ao ar ao vivo, mas, caso interesse, vocês ainda podem ver. Eu gostava do Hector. Respeitava o diretor – irregular, mas com grandes filmes e uma direção de cena forte -, gostava do cara, do homem. Babenco era irascível, e nisso parecia Leon Cakoff. Era irônico e esgrimia com gosto sua ironia, mas a despeito de nossas eventuais diferenças estéticas, acho que havia um respeito mútuo entre nós. Ele nunca foi caloroso para me agradar. E era caloroso. Acolheu-me em casa para muitas conversas que renderam entrevistas. A primeira vez que entrei na casa tive um choque. Por detrás daquele muro, nada me preparava para adentrar aquele jardim, pequena floresta, que levava a gente diretamente ao living. Muito vidro. Como ex-estudante de arquitetura, adorava aquele espaço, e lhe disse. “Ganhei essa casa do (produtor) Saul Zaentz”, ele dizia. “Foi meu pagamento por Brincando nos Campos do Senhor.” Sempre imaginei que ele estivesse querendo dizer com isso que comprou a casa com o salário do filme. Uma obra dramática sobre a ‘rain forest’ inspirava muito bem uma casa como aquela. E foi ali, sentados naquela sala, que Hector, um dia, me deu razão. Sempre achei Coração Iluminado, seu filme autobiográfico – um dos -, um equívoco. Tem gente que gosta, ele sempre soube que eu não gostava (nada). Em relação a outros, posso ter restrições, mas sempre tem o toque do autor, a cena forte. Naquele, não. E naquele dia, Babenco admitiu – “Eu não deveria ter matado a Xuxa. Tinha de ter encontrado outra solução.” Xuxa Lopes era a protagonista, com quem Babenco estava casado na época. Não, ele não deveria ter matado (ficcionalmente) a Xuxa, mas aí teria sido outro filme, com certeza, e desse outro talvez eu gostasse. Algumas de minhas melhores conversas sobre cinema foram com ele. Lembro-me de um encontro quando saíamos de uma sessão de Casa Vazia, de Kim Ki-duk. Eu estava chapado, ele começou como advogado do Diabo, mas terminou admitindo o impacto que o filme lhe provocara. Outra vez, em Berlim, ele estava no júri. Havia visto Malena, o melhor filme de Giuseppe Tornatore – alguém diria que não, que o melhor é Cinema Paradiso. Estávamos Héctor, José Carlos Avellar, outro morto querido, e eu. Estava deslumbrado por Monica Bellucci. Um dos mais belos planos do cinema é o do menino ficando de pau duro ao vê-la passar. Ouço perfeitamente o portunhol do Hector – “Seu problema, meu caro (ele nunca dizia Merten), é que você permanece romântico nesse mundo cínico.” Ele ria, mas não creio que realmente achasse um problema, porque é o meu romantismo que me faz reconhecer seus maiores filmes – Lúcio Flávio, Pixote, O Beijo da Mulher-Aranha, Ironweed, Carandiru. Sempre me impressionou que Babenco, argentino de nascimento, se tivesse naturalizado brasileiro para não ser acusado de se imiscuir no que não lhe dizia respeito, ao fazer Lúcio Flávio. A denúncia da conexão entre o aparelho repressivo da polícia e os porões da ditadura cívico militar. Tinha de ter culhão, me desculpem, para expor isso em 1977. Foi o primeiro filme a vencer o prêmio da Mostra. O resto é história – a Pietà de Pixote até hoje me assombra, e Marília Pêra foi a melhor atriz do ano para os críticos de Nova York, mas o que eu realmente guardo do filme é Lilica, a jovem travesti. Que personagem! Não sei, nesses tempos de politicamente correto e suspeita de abuso em tudo, se Babenco não teria problemas para fazer o filme daquele jeito. Lúcio Flávio e Pixote prepararam o caminho para Carandiru. Não sou um admirador incondicional do filme. Me incomoda aquela linearidade do roteiro, cada personagem sentando-se em frente ao dr. Drauzio do cinema, Luiz Carlos Vasconcelos, para desfiar sua história. Mas cada episódio é uma obra-prima de narração e, principalmente, direção de cena. Ele filmava bem demais, criava cenas fortes e se Babenco não tirasse uma boa interpretação, não importa de quem, era bom ele ou ela desistirem porque não seriam do ramo (falo dos atores). Há em Carandiru uma ética da criminalidade que mexe comigo. Aquela imagem do cachorro avançando no corredor, a câmera rente ao chão, é emblemática desse Brasil do massacre impune das periferias. Em seus grandes filmes, ele sempre desconfiou da legitimidade do sistema carcerário/legal. Era cosmopolita, e era regional. Aonde estivesse filmando (São Paulo, Amazônia, Albany) sabia reconhecer uma atmosfera e colocá-la na tela. E eu o admirei, respeitei, como respeito e admiro, por sua integridade. Claro que teria histórias desabonadoras para contar – quem não? Não é só no meio cinematográfico que todo o mundo fala mal de todo mundo. São histórias que não importam, algumas divertidas, porque não abrem fissuras nessa integridade. Babenco abriu a última Mostra com Meu Amigo Hindu e depois fez ajustes naquela versão, mudando-a para o lançamento. Nunca vi o ‘novo’ Amigo Hindu. Acho que estava fora, em Berlim, ou voltando, quando isso ocorreu. Devo-lhe esta, Hector.