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Devaneios

Luiz Carlos Merten

18 de abril de 2014 | 19h06

Liguei ontem para Ruy Guerra, para colher seu depoimento sobre Gabriel García Márquez. Ruy, fildalgo como sempre, me deu seus motivos para não falar, e o respeitei. Em síntese, dependendo do que dissesse, ele acha que estaria se aproveitando de uma relação, e uma amizade, consolidadas através do tempo (e da criação conjunta). Mais um pouquinho de conversa e me disse que, em agosto, começa finalmente a filmar Quase Memória, o romance de Carlos Heitor Cony, que já estava virando um projeto mítico. Tenho sincera admiração por Ruy, mesmo que, eventualmente, não goste muito de suas adaptações de Gabo. Depois de conversar com ele, fiquei me sentindo meio mal por haver colocado isso no post anterior. Mas aí desenvolvi um raciocínio que me deixou em paz comigo mesmo. Vou formulá-lo para vocês. Já disse quanto gosto do final de Cem Anos de Solidão e até escolhi um trecho para ler, na homenagem que nós, do Caderno 2, prestamos ao escritor, na TV Estado. Procure para ver. Pode-se entrar pelo portal do Estadão. Realidade e literatura vão se interligando e interpenetrando num crescendo – um jorro – que termina com a condenação bíblica da estirpe de Aureliano aos cem anos de solidão. Amo aquilo. É pura (meta)linguagem e, de certo forma, mesmo não gostando muito de seus livros, acho que Chico Buarque não deixa de ser um herdeiro do jorro marqueziano. Em seus livros, a trama não é o mais importante e sim, a linguagem, o ato de escrever, do qual participamos intensamente (como Aureliano ao tentar ler as folhas que o vento agita enquanto o terremoto traga Macondo). Pode ser que isso não valha para Budapeste nem Leite Derramado, que li como penitência, como se fosse obrigação, mas com certeza vale para Estorvo, que Ruy transformou num filme belíssimo, à altura de seus maiores – Os Cafajestes, Os Fuzis, A Queda. Tenho muita vontade de rever Os Deuses e os Mortos. É um filme cuja trilha está sempre repercutindo na minha cabeça – A Matança do Porco é uma das coisas mais belas que já ouvi. Acho que, quando revir o filme, vou colocá-lo no panteão (espero). E foi assim, indiretamente, através de Chico, que me reconciliei comigo na admiração por Ruy, mesmo que ele não me satisfaça como adaptador de Gabo. Mais que o realismo mágico, o que me faz falta é o humor, que Gabo tem, Chico, não, e Ruy, também não – nos filmes, porque na vida já o vi falar para um auditório e foi engraçadíssimo.

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