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Desejo Que Atormenta e uma velha polêmica com James Ivory

Luiz Carlos Merten

21 Março 2017 | 09h29

Nem me lembro mais se foi 1991 ou 92, mas era um dos meus primeiros anos em Veneza. Entrevistei James Ivory no Hotel des Bains. Sentamos num ângulo do lobby que proporcionava uma vista ampla do salão. Falei da minha emoção de estar ali e que era capaz de ver a mãe de Tadzio – Madame de Möens, Silvana Mangano – adentrar, enquadrada pelos vasos com flores (palmas), em Morte em Veneza. Estraguei o dia de ‘James’. Percebi na hora que ele odiava Luchino Visconti e que lhe pareceu que o provocava. Ivory, por suas reconstituições de época, devia ter o complexo de sub-Visconti. Afinal, o outro ainda era aristocrata – de berço. (A fábula das duas tias, a rica e a pobre.) Mas ele me fez uma observação séria, que tive de levar em consideração. Visconti filmava com elencos internacionais. Cada ator ou atriz falava sua língua, ou com sotaque, e depois ele dublava todo mundo. A coisa era tão maluca que, em Rocco e Seus Irmãos, quando houve o imbróglio com aquele juiz de Milão, que quis proibir o filme, Visconti simplesmente mudou o nome da família e os Pafundi viraram Parondi. Existem cartazes e placas (de endereço) que, dentro do filme, mantêm o Pafundi. Para um perfeccionista obsessivo, era no mínimo estranho. Lembrei-me disso, mas por causa de outro filme, de outro diretor. Fui fazer não sei que pesquisa e encontrei, no Now, Desejo Que Atormenta/Senilità, que Mauro Bolognini adaptou de Ítalo Svevo, em 1962, um de seus muitos filmes com Claudia Cardinale. O filme conta a história da degradação, por amor, do personagem de Anthony Franciosa. Um funcionário respeitável. Trieste, fim do século 19. Ele se envolve com Angiolina. Ela faz gato e sapato dele. O filme é de uma beleza de cortar o fôlego. Fotografia em preto e branco, de Armando Nannuzzi, figurinos de Piero Tozzi, música de Piero Piccioni. A cidade está sempre envolta numa bruma. Vou muito ao Sujinho, o da direita, subindo a Consolação. Tem uma foto imensa da Angélica, no começo do século passado. Sempre disse para o Dib que aquilo parecia cena de Bolognini. É São Paulo, mas poderia ser Trieste. Desejo Que Atormenta é forte. Cruel. Angiolina entra na vida de Tony Franciosa como Nádia/Annie Girardot na de Rocco e seus irmãos. Ri daquele jeito vulgar, provocativo. Mais tarde Franciosa vai gritar que é uma putana. Como Visconti, Bolognini dubla seus atores (franceses, norte-americanos). A dublagem salta (aos ouvidos). Compromete? Não sei. Só sei que James Ivory teria reclamado desses italianos. Bolognini, a impotência de seus homens, a mistificação de suas mulheres, faz parte do meu imaginário. Viajei no tempo revendo Senilità.