As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Desce o pano, rápido! (E uma homenagem tardia a Chéreau)

Luiz Carlos Merten

11 de novembro de 2013 | 00h04

Fui ver L’Homme Blessé, como havia planejado, e tive o maior choque ao descobrir que o Mix Brasil exibia o filme num tributo a Patrice Chéreau. Tributo? Juro que não sabia que Chéreau morreu em 7 de outubro, durante o Festival do Rio. Eu correndo, vendo filmes, fazendo entrevistas. Ninguém comentou nada e eu, que, eventualmente, faço pesquisas muito pontuais na internet, simplesmente não fiquei sabendo. Chéreau morreu de câncer, aos 68 anos, a minha idade. Há um par de anos, ele foi artista convidado no Louvre e fez uma exposição linda, misturando quadros do acervo do museu com maquetes e croquis de suas montagens mais famosas. Sempre quis ver Chéreau no palco, mas esse é agora um desejo que jamais será realizado. Que triste! Nenhuma de suas peças, de suas óperas! Nem no cinema conheço sua obra completa. Consegui recuperar, graças ao Mix Brasil, O Homem Ferido. Em Paris, anos atrás,. numa programação dedicada a James Hadley Chase, vi La Chair de l’Orchidée, curiosamente com Pas d’Orchidées pour Miss Blandish, de Robert Aldrich, que é melhor – e no Brasil passou como O Resgate de Uma Vida. (O filme de Chéreau chamou-se A Marca das Orquídea.) Nunca vi Judith Thérpauve, mas acompanhei Chéreau a partir do viscontiano A Rainha Margot, que ele fez retomando uma lição do grande Luchino, que considerava Rocco a culminação de sua fase antropomórfica, quando dirigia sua câmera para o corpo dos atores. Margot é a obra-prima antropomórfica de Chéreau (seu melhor filme, disparado). Depois vieram Ceux Qui m’Aiment Prendront le Train, Intimacy, Son Frère e Gabrielle. Tenho a impressão de que Chéreau não conseguiu ser, no cinema, tão grande quanto no teatro e na ópera, mas sua obra ‘imperfeita’ compõe-se de fragmentos magníficos. E ousadias – o sexo em Intimidade, a aids em Ceux Qui m’Aiment. A propósito, o roteiro de O Homem Ferido foi escrito por ele com Hervé Guibert, um autor que foi decisivo no processo de mudança da atitude dos franceses em relação à síndrome de imunodeficiência. Guibert ficcionalizou a própria condição de soropositivo num livro que fez sensação – Ao Amigo Que não Me Salvou a Vida. Fecho o parêntese sobre ele. Em maio, em Cannes Classics, passou a versão restaurada da Reine Margot. Vincent Perez fez a apresentação, representando o diretor. Danièle Thompson, a roteirista, e ele – não pensei por um momento que Chéreau não estava lá porque talvez estivesse mal. Disse para mim mesmo – vou ver só um pouco, mas quem consegue desgrudar o olho de Isabelle Adjani, de Virna Lisi, de Jean-Hughes Anglade e Vincent Perez? Fui ficando, ficando, até o fim. Deslumbrado com na suntuosidade cênica, com a história, com o elenco. É muito mais do que posso dizer de minha reação a O Homem Ferido. Pode ter sido o impacto da descoberta da morte de Chéreau, que me nocauteou, mas a descida aos infernos do gay interpretado por Anglade, o seu impulso por violência e autodestruição que o aproxima e torna dependente de Vittorio Mezzogiorno – essa visão à Genet da homossexualidade como marginal -, me tiraram do eixo. Puta ator, o Anglade. Corajoso – três anos depois de encarnar o desejo homossexual para Chéreau, embarcou em outra viagem e, em Betty Blue, de Jean-Jacques Beineix, Beatrice Dalle e ele viveram o casal confrontado com a loucura, a perda e a morte. Interessante, mas agora que escrevi, não deixam de ser os temas de O Homem Ferido, não? Gay ou hetero, o impulso sadomasô dos pares (ou casais) pode muito bem ser o mesmo. Aproveito para escrever algo que talvez não agrade a André Fisher, que tem sido, estes anos todos, guerreiro para realizar o Festival das Diversidades. Não discuto a importância nem a necessidade, mas é, continua sendo, um gueto, basta ver a plateia que lá estava para ver o Chéreau e, na sequência, um documentário sobre a cena musical gay de São Paulo nos anos 1980. Tenho a impressão de que muita gente ainda se assusta com o que teme que poderá encontrar no Mix Brasil. Pois é preciso quebrar o preconceito. O cinéfilo vai ter de conviver com muita gente diferente, mas e daí? O essencial é que vai encontrar muitos bons filmes, independentemente de preferência ou orientação sexual. Dei uma olhada no programa e, de cara, assinalei uma meia-dúzia de títulos que me interessaram (e vou correr atrás deles). Mas não resisto a contar o que é fato, mas pode ser piada. Naquela história de fulano te apresenta sicrano, de repente estava conversando com um cara que não conheço e falei alguma coisa – provavelmente inadequada – sobre Gerontophilia, de Bruce LaBruce, que vi no Festival do Rio, com, direito a entrevistar o diretor. O filme é sobre garoto que se excita fazendo sexo com velhos e vai trabalhar num hospital para doentes terminais. Ele foge com um desses pacientes e o Bruce me contou como foi punk para o garoto, que é hetero, fazer as cenas com o idoso, que é mesmo gay. Nessa história de liberar fantasias, tem uma cena em que o jovem lambe as feridas do velho. Achei meio demais e meu comentário foi que a cena me pareceu árdua, independentemente de sexo. Se fosse com mulher, lamber a ferida purulenta teria me produzido o mesmo efeito – que não foi de repulsa (em geral aguento bem essas coisas escatológicas), mas de desagrado. O cara com quem eu falava, mais militante, disparou – ai, credo, se fosse com mulher aí sim é que seria uma cena de terror, que nojo. Lembrei-me do Teatro de Millor Fernandes na antiga revista O Cruzeiro – desce o pano, rápido!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.