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Desabafo (ou provocação?)

Luiz Carlos Merten

22 de janeiro de 2014 | 09h44

Em geral, não leio o que os outros escrevem, principalmente pessoas próximas, porque minha tentação é sempre, mesmo inconscientemente, responder. Mas confesso que acho que vou abrir uma exceção para tentar entender porque as pessoas gostam tanto do novo Scorsese. Depois de duas ou três tentativas, consegui rever O Lobo de Wall Street na pré-estreia realizada no JK Iguatemi. Havia visto em Los Angeles, e até agora me arrependo de ter trocado Lone Survivor, O Grande Herói, pelo Lobo, mas queria rever o filme com calma, com legendas. Ver o filme com o ouvido, tentando ouvir e traduzir mentalmente o que as pessoas dizem – o inglês, afinal, não é minha primeira língua; seria, no máximo a quarta, depois do português, espanhol e francês -, dispersa a atenção e no cinema, como dizia Michel Mourlet, ‘tout est dans la mise-em-scène’. Com toda sua exuberância, achei não o personagem, mas o filme sórdido. Aquelas duas últimas cenas são de matar. Mas Márcio Fraccaroli tem razão. O Lobo terá megalançamento, bem, não mega mas grande, em mais de 200 salas, porque Márcio, e a Paris, acreditam que seja o mais comercial desse Oscar. Nenhum outro filme da seleção – nenhum outro filme em cartaz – atende tanto à demanda do baixo ventre do público. A mais grosseira das comédias brasileiras fica discreta, para freirinhas num convento, se bem que as freirinhas são todas lésbicas e drogadas – é uma frase do Lobo, né? Ah, sim, mas Scorsese está criticando o poder corruptor do dinheiro… Disse que queria ler o que as pessoas vão escrever, mas é mentira, não quero, porque creio, sinceramente, que nessa época de ‘morte’ das ideologias, um filme como esse revela muito sobre as aspirações de quem o ama. Admito, porém, que tive meu momento de diversão. Jordan, ‘Leo’ DiCaprio, faz seu discurso de bonzinho, dizendo como deu dinheiro à funcionária para que ela educasse o filho. Ela chora, todos choram, e eu me perguntava aonde ia parar aquilo. Em cana. No minuto seguinte madame está sendo algemada como 171, aos gritos de ‘não amassem meu terninho. É Chanel’. Maravilha. Aliás, sempre tem um aliás, confesso que essa seleção do Oscar me tirou um peso das costas. Em Los Angeles, havia ficado pasmo com a campanha pelas indicações de Inside Llewyn Davis. Eram páginas e páginas – duplas! – for your consideration. Conseguiram cavar 400 e tantos críticos (!), todos dizendo que era o melhor filme dos Coen e que Oscar Isaac era o melhor ator do ano. A campanha havia começado em Cannes, no ano passado, na coletiva do filme. Um daqueles ingleses ‘melífluos’ já havia cravado que a atuação do moço era ‘Oscar winning’. Desta vez, não colou. Só o fato de os Coen terem sido desmascarados já me dá alento. Agora, só falta o Marty.

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