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Depois da Navalha na Carne Negra, o engajamento de Mãos Sujas: Sartre por José Fernando Peixoto de Azevedo

Luiz Carlos Merten

05 de novembro de 2019 | 22h28

Havia prometido voltar ao tema, e volto. No programa de As Mãos Sujas, Homero Santiago, livre-docente do Departamento de Filosofia da USP – o nome dele está grafado errado, como Santigo – conta como e por que lhe foi encomendada uma nova tradução da peça de Jean-Paul Sartre. Foi há uns dez anos – dez! – que José Fernando Peixoto de Azevedo lhe propôs a empreitada. Já havia uma tradução em língua portuguesa, feita em pleno salazarismo, em Portugal. Embora pareça um tempo muito curto, o Brasil e o mundo, incrivelmente, eram outros. As Mãos Sujas estreou em 1948, com o que pareciam questões específicas do período, o pós-guerra. Dos escombros do nazifascismo erguera-se o mundo polarizado da Guerra Fria e Sartre levantava a bandeira do existencialismo. A existência precede a essência, o ser humano existe antes de ser qualquer coisa. Resquícios da guerra – o Leste europeu comunistava-se e Sartre discutia questões como fins e meios. Inspirado por Saint-Just, que dizia que ninguém governa inocentemente, criava o embate entre Hugo e Hoederer, o idealista e o homem que, em nome da governabilidade, aceita sujar as mãos. Sartre, na época, embasava-se da tragédia grega e citava Sófocles, dizendo que nenhum de seus personagens estava certo ou errado. O texto português era de uma linguagem erudita, para ser lido, não falado, e José Fernando talvez já pensasse na encenação, ao encomendar a nova tradução. Nos últimos anos, ele desenvolveu um método, um dispositivo. Acertou em cheio com Navalha na Carne Negra, um pouco menos com Três Pretos – Valor de Uso, ou assim me pareceu, e acerta de novo, talvez mais ainda, com Les Mains Sales. O texto, que poderia parecer datado – questões de 1948, nada mais – revela-se de uma atualidade assombrosa sobre o Brasil de 2019. Pode estar no olhar de quem vê, mas com aquele vermelho rosso? Tem muito vermelho naquele cenário, naquelas roupas. Não será mera coincidência que Hugo, ao embaralhar o público e o privado, o político e o passional, cometa o assassinato que o partido espera dele, para descobrir mais tarde que suas mãos é que estão sujas. Texto e montagem estão levantando questões sobre formas de engajamento e os limites de um projeto político – qual o preço a pagar, quando se pretende mudar o mundo? -, mas o centro, pelo menos como vi As Mãos Sujas, tem a ver com uma certa prisão em Curitiba e verdades assombrosas que não param de vir à tona, malgrado as tentativas de acobertamento. Quem decidirá entre Antígona e Creonte? O horror, o horror. José Fernando usa gravação de vídeo no palco, mas não da mesma forma que outros diretores. O telão não é só um plus a mais, mas intervém diretamente na cena e cria um outro ponto de vista, como quando Jessica assiste ao embate entre Hugo e Hoederer. Desse diálogo entre os dois se alimentarão a fragilidade de Hugo (‘O que você faria, se estivesse no meu lugar?’) e o fascínio de Jessica por Hoederer, que, exposto, precipitará a tragédia. A beleza da dramaturgia – por mais elevadas que sejam as ideias, a natureza humana é precária. Barro humano. O embate entre o gesto impulsivo e a palavra consciente, ecos de Glauber Rocha e de Terra em Transe, com um país, e um movimento revolucionário, divididos como Eldorado. Gostei demais do quarteto principal – dois homens e duas mulheres, e do ator que faz Hoederer. Nunca falei com José Fernando, o diretor. Alimento minha admiração à distância. Pesquisei na internet e descobri que é doutor em filosofia, com tese sobre o teatro de Brecht, leciona teorias do teatro e história do teatro brasileiro na EAD/ECA e foi um dos fundadores do Teatro dos Narradores. Já estou me programando para ir de novo ao Sesc Ipiranga e rever o Sartre com Emília Silveira e Orlando Margarido, quando ela voltar a São Paulo para lançar seu documentário sobre (Antônio) Callado, dentro de duas semanas.