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Depois da maratona da Mostra, maratonas de teatro

Luiz Carlos Merten

03 de novembro de 2019 | 23h17

Voltei – ao teatro. Uma peça de cinco horas no sábado (Os Sete Afluentes do Rio Ota) e outra de três no domingo (As Mãos Sujas) me reabasteceram, após a maratona da Mostra. E não que tenha desistido dela – assisti hoje à tarde, no CineSesc, ao média-metragem de Affonso Uchôa, Sete Anos em Maio. Esse Affonso não cessa de me surpreender com suas abordagens sobre a marginalização da classe trabalhadora. É só o filme conseguir uma brecha no circuito e eu vou fazer a maior força para premiá-lo na APCA, como um dos melhores do ano. Aliás, já vou avisando que teremos na quarta, 6, mais um debate na parceria do Estado com o Belas Artes, e o filme da vez será Parasita, de Bong Joon-ho, que me enviou, através da Paula Ferraz, as respostas às perguntas que lhe fiz numa entrevista por e-mail. Rio Ota – a própria diretora Monique Gardenberg estava no Sesc Pinheiros, no fim da apresentação, no sábado à noite, Lembrou a estreia no Rio, em 2002, quando a peça foi destruída pela crítica, mas não nomeou se foi Bárbara Heliodora ou Macksen Luiz. O fracasso foi retumbante, mas Monique botava fé na montagem e agradeceu ao Sesc, e a Danilo Santos de Miranda, na plateia, por haverem acolhido Rio Ota em São Paulo, onde o sucesso foi estrondoso. Não me lembrava de muita coisa – fragmentos, apenas. Sei que me exponho a levar pedradas, mas nunca vi nada de Peter Brook que me arrebatasse no teatro e o Bob Wilson – Bób Wilsôn, como diz a Isabelle Huppert -, esse me parece um porre, com seu dispositivo que, uma vez identificado, repete-se sempre. Já o Robert Lepage me parece interessantíssimo e, ao adaptá-lo, Monique o reinventa. Vocês sabiam que o espetáculo dele não tem música? Já o dela, tem, e é muita, e é essencial. Um fotógrafo norte-americano, um soldado, é enviado a Hiroshima para documentar os estragos causados pela explosão da bomba atômica. Tem, na ‘América’, um filho chamado Jeffrey. Engravida uma japonesa, que tem um filho, e ele vai se chamar Jeffrey – também. A peça segue as histórias dos dois Jeffreys e seus descendentes, de 1945 a 2000. O primeiro ato é deslumbrante, culminando no suicídio assistido de um dos Jeffreys. O segundo, de duração menor, não me apaixona tanto, mas tem momentos belíssimos. Rio Ota usa a bomba, como símbolo de destruição e morte, para falar de superação e vida. A própria ideia do rio, junto ao qual se ergue a casa de Hanako, e que está sempre em movimento, reafirma o que digo. Um dos sete capítulos, como os sete afluentes, chama-se Palavras, e eu não conseguia deixar de pensar em Alain esnais, e Marguerite Duras. La voix de Emmanuelle Riva – ‘La stuaire en delta de la rivière Ota’ -La estuér an deltá de la riviére Otá.’ O dançarino de butô que ressignifica os movimentos da mulher e cria uma coreografia que resume a peça. O lançamento das cinzas do morto, como condição para um recomeço, no rio. Monique tem toda razão. Se lutou tanto,m no passado, para trazer a peça a São Paulo e, agora, para remontá-la – o próprio Lepage acaba de remontar sua criação em Moscou -, é porque sabe é bela, complexa, poética. Ia emendar com o Jean-Paul Sartre, Les Mains Sales, mas o texto já está enorme e vou deixar para novo post, amanhã. Depois de Ivan Andrade e Gabriel Villela, fiquei pasmo como o debate sobre o Brasil pos-impeachment, o Brasil de Jair Bolsonaro, passa por Albert Camus e Sartre. É como se estivéssemos de volta aos escombros da 2.ª Guerra. De outra guerra, com certeza.

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