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Democracia, revolução e o cinema rebelado de Sebastián Lelio. Santiago a mil!

Luiz Carlos Merten

16 Janeiro 2019 | 14h11

SANTIAGO – Passei ontem maus momentos durante a apresentação de Democracia no Centro GAM, dentro da programação do Santiago a Mil. Nada a ver com a qualidade da montagem chilena de Felipe Hirsch. Me deu uma palpitação no peito, um peso no ombro esquerdo. Cheguei a pensar que estava enfartando, e me bateu que seria horrível morrer numa terra estranha, sozinho. Voltei ao meu mantra ‘roseano’. Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso – Augusto Matraga. Comecei a respirar pausadamente. Ajudou. Felipe Hirsch falou à capella para o público do teatro, antes da apresentação. Disse que o momento é grave, e no Brasil está começando um regime de extrema-direita, não de direita. Isso de certa forma facilitou a adesão do público ao espetáculo, e não sei se não contribuiu para o meu mal-estar, pensar nessa m… toda em que estamos metidos. O Centro GAM, ao lado do metrô Universidad Católica, estava ocupado por estudantes em greve, que protestavam com faixas – ‘Nada nos ha sido dado; todo lo ganamos luchando’. E é verdade. Só ganhou de mão beijada quem nasceu em berço esplêndido. Começa hoje, aqui, e vai até sexta, um Encuentro Estudantil-Revolucionário. Nesse mundo cada vez mais reacionário, a juventude chilena mobiliza-se contra o neoliberalismo econômico e social. Incrível, fantástico, extraordinário. Pinochet, com seu golpe, instalou a barbárie para extirpar do coração do Chile o sonho da Unidade Popular de Salvador Allende. Pinochet foi preso, denunciado por violência e corrupção (e com provas incontornáveis). Cada vez que vou ao Centro Cultural La Moneda passo na praça em frente ao palácio que foi bombardeado para ver a estátua triunfante de Allende. Não o venceram. ‘Mucho más temprano que tarde de nuevo se abrirán las largas alamedas por donde pase el hombre libre para construir una sociedad más justa.’ Estou citando de memória. Posso ser um velho tolo, mas me emociono cada vez que leio a frase (a sentença?) inscrita naquele monumento. E a mobilização que vejo prova que ainda tem luta. Heitor C., a quem não vejo há um ano, gostaria, quem sabe, de estar aqui, em meio a essa agitação. Não pude deixar de pensar nele. Encontrei Felipe Hirsch antes da função, no bar. Não sabia exatamente o que ia ver em Democracia. Durante um ano ele pesquisou a Constituição do Chile para criar o espetáculo que desenvolveu com Alejandro Zambra. Cinco atores, três homens e duas mulheres, no palco desnudo, exceto pelo letreiro luminoso ao fundo, com o nome da peça. Durante 1h40, como num jogo, os atores/personagens têm de fazer suas múltiplas escolhas sobre questões ligadas ao tema central. Educação, a ditadura, transição democrática, desigualdade, ética, família, divórcio. E, de repente, não de forma inesperada, mas em momentos críticos, as escolhas param para que eles contem histórias – verdadeiras, me disse na saída o Felipe. A garota que, envergonhada, negou a própria mãe, o jovem que fabricava coquetéis Molotov na casa de brinquedo da irmã, no pátio, e que no afã de escondê-los da polícia militar, lançou-os contra a própria casa, etc. Emocionei-me (muito!), cheguei a chorar. Democracia vai viajar – Brasil, Cuba. E o Felipe vai fazer novo filme, que escreveu para Alice Braga. Não sou um grande fã de Insolação, mas amei Severina e agora gostei muito de ter visto Democracia. Hay que creer. Espero que as palpitações não tenham sido nada e ainda veja… O quê? Tanta coisa. À tarde, rever Vamonos con Pancho Villa já havia sido visceral para mim. A história dos Leones de San Pablo, que se unem à revolução de Pancho Villa e vão morrendo, heroicamente, e talvez de forma nem tão heróica assim. La revolución. Viajei na lembrança. Os Profissionais, a aventura revolucionária de meu querido Richard Brooks. Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan e Woody Strode, contratados para resgatar a mulher de um ricaço norte-americano (Claudia Cardinale), que foi sequestrada por um revolucionário mexicano (Jesus Raza/Jack Palance) descobrem que, na verdade, o gringo é que a mantinha em cativeiro. O feminismo em Hollywood – se Claudia escolhia seu homem, Marie Gómez dava com gosto e lealdade, com fervor revolucionário, para todos os compañeros. Que filme! Filmes, o de Fernando De Fuentes também. E a minha noite, mesmo baleado, não terminou com Democracia (nunca!). Depois do Felipe Hirsch, corri à Cineteca Nacional, onde já havia negociado para que me deixassem entrar no encontro de Sebastián Lelio com o público, após a exibição de Uma Mulher Fantástica, que encerrou a retrospectiva a ele dedicada. Lelio merece um post inteiro, que não vou fazer agora. Já enviei minhas matérias de amanhã para o Caderno 2. Agora, vou almoçar e… Cinema, teatro. Mais do Santiago a Mil.