As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Democracia em vertigem, ou alerta?

Luiz Carlos Merten

23 de junho de 2019 | 14h24

Não gosto muito, ou melhor, não gosto – tout court – de Elena, gosto um pouco de O Olmo e a Gaivota, mas gostei bastante de Democracia em Vertigem. O novo documentário de Petra Costa coloca no centro do debate político brasileiro algo que é essencial no cinema que ela faz – o lugar da fala de Petra como artista, cidadã, mulher. De cara, Petra começa, como sempre, falando na primeira pessoa, mas dessa vez, como nunca, o discurso me tocou – pela visceralidade, pela autocrítica. Porque Petra não é somente rica. A fortuna de sua família está ligada à construtora Andrade Gutierrez, e as construtoras têm estado na mira da Lava-Jato pelos motivos que todo mundo sabe. Sua mãe destaca no quê, e por que, a Lava-Jato foi (é?) importante, mas faz uma ressalva – os indiciamentos, as condenações são muito politizados. Mamãe chega a observar um dado perverso do ‘processo’ – a elite, para legitimar toda essa história, chega a sacrificar parte de si mesma, claro que não o topo da pirâmide social e política. O mais incrível é que a mãe de Petra diz isso e o filme chega à Netflix, parceira da diretora no projeto, no momento em que as revelações de The Intercept estão provocando todo esse rebuliço. Lembrem-se do livro farol de Paulo Moreira Leite, que nunca deixei de citar no blog, sobre como uma operação necessária de combate à corrupção no Brasil estava se desviando para se converter numa ameaça à democracia. Petra faz o que, além dela. somente os irmãos Salles talvez pudessem fazer – olhar toda essa lambança de uma perspectiva de classe. “É a minha classe que está comandando essa guerra – de ricos contra pobres”, ela diz. Seu filme me devolveu à matriz do cinema – do artista – que nunca deixou de ser ‘a’referência para mim. Luchino Visconti, o duque vermelho. Aristocrata de nascimento e marxista pelo projeto ideológico de sua vida. No longa, e em primeira pessoa, Petra explica porque se sentiu compelida a ir para a rua documentar o que passava no Brasil. Mas o impeachment da presidenta Dilma Roussef foi só um começo. Para entender aquilo ela precisava decifrar o Congresso, o isolamento da classe politica no Planalto Central, e aí voltou aos anos JK. Teve de entender o antipetismo, e voltou às greves do ABC, durante a ditadura militar, a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva como sindicalista, líder político, presidente, etc etc. O filme foi crescendo de tamanho, Petra poderia ter-se perdido no caminho, mas não. E ela logra um momento único – Dilma, após o impeachment, no carro presidencial com seu advogado. A presidenta, tirado o peso de cima dela – tudo foi perdido e o Congresso deu aquele espetáculo degradante na votação -, está livre, solta, poderia-se dizer até alegre. E Dilma faz aquela análise. Está vivendo uma situação kafkiana, mas não a do Processo – O Castelo. Sua lucidez intelectual é acachapante, nesse novo Brasil de bárbaros em que o QI deve ser medido pelos armamentos, e o ministro da Educação confunde Kafka com kafta. Tudo está virando piada, quando não vira pizza nos humorísticos que não conseguem mais dar conta de tanta loucura. Os humorísticos, não. O cinema, sim, e por isso está na mira.

Tendências: