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Delírios de Hollywood

Luiz Carlos Merten

08 de julho de 2013 | 14h46

Não, não tem nada a ver com Barton Fink nem com os Irmãos Coen. Tenho pensado muito, e ajudou bastante encontrar Rodrigo Pereira, autor de Homens não Entram, no sábado à noite. Rodrigo é especialista em western, casado com Ana Paula Souza, que, temo estar cometendo uma indiscrição, está ‘escondida’ na cidade para redigir sua dissertação de mestrado sobre políticas culturas no País, que ela defende numa universidade inglesa. No debate sobre Fora do Centro, no evento Tiradentes em São Paulo, o conceito de cinema de autor aflorou muitas vezes. A autoria em cinema é uma questão complexa. A politique des auteurs foi criada na revista Cahiers du Cinéma, na fase pré-nouvelle vague, como uma reação ao pensamento acadêmico que dominava o cinema francês e mundial. Os jovens turcos de Cahiers defendiam o conceito de autor no quadro de um cinema industrial, de ‘estúdio’, como era Hollywood. A ideia era provar que, sujeitos à disciplina e à tutelagem da máquina hollywoodiana, os diretores contavam com seu estilo para fazer, contra tudo e todos, os ‘seus’ filmes. Au cinéma, tout est dans la mise-en-scène. Don Weiss, de um pequeno filme chamado As Aventuras de Haji Bana, era maior que Fred Zinnemann (com certeza) e George Stevens (aí já não estou tão certo). Claro que o objetivo final não era Don Weiss, mas a defesa de ser hawks-hitchcockien. Howard Hawks e Alfred Hitchcock, dois diretores que nunca ganharam o Oscar – Hitch até que levou o de filme, por Rebecca –, eram a prova definitiva de que era possível ser autor, e grande, num sistema industrial. Os turcos não tinham o mesmo entusiasmo por um certo Serguei, e os sete minutos da sequência da escadaria de Odessa, em O Encouraçado Potemkin, nunca provocaram neles o furor, acaso o estupor que a descoberta dos amantes calcinados e abraçados em Viagem na Itália, de Roberto Rossellini, produziu em toda uma geração da crítica francesa, aqueles mesmos que depois viraram diretores. Diante de Viagem na Itália – originalmente, o filme foi lançado como Romance na Itália, pelo menos no Brasil –, Jacques Rivette disse que todo o cinema, de repente, havia ficado dez anos mais velho. E hoje, o que ocorre? Voltamos ao pensamento acadêmico. Christopher Nolan e Zach Snyder podem estar fazendo uma revolução em Hollywood, mas são homens do ‘sistema’, e blockbusters, segundo a crítica em 2013, não podem ser autorais.  Ai, que preguiça, como diria Macunaíma. Cinema autoral, hoje, é o Alexander Sokurov com seu Fausto, mas se pelo menos ele tivesse vertido o Goethe para uma aventura de James Bond, aí, sim, seria insólito (original?). Às vezes penso que não foi só o capitalismo, travestido de neoliberalismo, que venceu. A academia, também.

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