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Deixei entrar a luz da manhã

Luiz Carlos Merten

15 de dezembro de 2018 | 09h28

Meu inconsciente deve estar querendo me dizer alguma coisa. Acordei-me hoje com Castigo, de Dolores Duran, ecoando na minha cabeça. ‘A gente briga/Diz tanta coisa que não quer dizer/Briga pensando que não vai sofrer/que não faz mal, se tudo terminar…’ Mais um ano, menos um ano, como diria Mário Peixoto. Estamos em dezembro, dia 15, praticamente a duas semanas do novo ano. O que nos trará 2019? O que estarão pensando os eleitores do coiso? Elegeram o discurso do ódio, o lobo que prometia matar e está sendo empossado o cordeiro – em termos. As denúncias que cercam a administração que está chegando revalidam Giuseppe Tommaso di Lampedusa – e Luchino Visconti. O lepardo, e o chacal. As coisas mudam para continuar as mesmas. Provavelmente, vão ficar um pouco piores para a classe trabalhadora, para os índios, para os sem-terra, mas quem está preocupado com isso? O partido de Jair Bolsonaro e o próprio sustentaram Michel Temer, já havia denúncias antes, mas nada disso impediu que fosse ungido como o ‘novo’. Enfim, a vida é feita de escolhas, no plano íntimo, pessoal, no político, social. Alea jacta est. (Noss)A sorte está lançada. Passei um ano de muita dor – física – e a dor nunca é a melhor companheira. Houve momentos de desespero que, agora, no retrospecto e com a distância, já não parecem tão graves. E daí? E daí, por mais cruel perseguição… Estou nesses devaneios um tanto nostálgicos porque ontem tive de sacramentar minhas escolhas de melhores do ano para o Divirta-se. Três filmes nacionais, pela ordem – Arábia, Antes do Fim, Paraíso Perdido. Três estrangeiros – Em Chamas, Roma e Maria Madalena. A Paixão de Cristo em fase de empoderamento feminino. Rooney Mara e You Ah-in, os melhores atores (que não estarão no Oscar). Magali Biff, a Rosália de Pela Janela, e Aristides de Sousa, o Cristiano de Arábia, os melhores nacionais. Justificar o voto sempre mexe comigo. É uma questão de momento. Hoje já não escreveria a mesma justificativa, quem sabe? Amei o Aquaman, vocês sabem, e ontem, no almoço da Warner, com direito a caipirinha, soube que o blockbuster de James Wan com o poderoso James Momoa já entrou com… 500 mil espectadores! Desse jeito, vai ter 2. Pela manhã, fui (re)ver na Reserva, na cabine de imprensa, o Christophe Honoré – Conquistar, Amar e Viver Intensamente. Sorry, angel. A aids, por um outro viés que não o de 120 Batimentos por Minuto. Pierre Deladonchamps, de Um Estranho no Lago. Vincent Lacoste, de Les Beaux Gosses. A dor física do amor – do sexo? Havia gostado do Honoré, que vi em Cannes,em maio. Gostei mais. Conquistar, Amar, embora se passe em 1993, antes da explosão da internet, dialoga muito bem com Tinta Bruta, dos gaúchos Filipe Matzembacher e Márcio Reolon. E Honoré, como Hong Sangsoo, é um cineasta nouvelle vague. De alguma forma, fez seu Um Só Pecado, título horrível para La Peau Douce – em versão gay. O intelectual parisiense vai à província, liga-se ao garoto. Em Paris, Vincent Lacoste vai ao Beaubourg, ao cemitério Pierre Lachaise. Visita os túmulos de Arthur Rimbaud e François Truffaut. Touchant, touché.