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Deitado em berço esplêndido, o bebê vai acordar?

Luiz Carlos Merten

14 de junho de 2016 | 23h11

Fiz hoje uma pequena cirurgia na boca, para colocação de pino, com vistas a futuro implante, daquele dente cuja raiz rachou há uns dois meses. Mas isso não me impediu de fazer entrevistas (com Tata Amaral e Carlos Alberto Riccelli, e eu gostei bastante de Trago Comigo) nem de ir ao Varilux para conferir La Vanité, que Roger Lerina, de Zero Hora, me havia recomendado no Rio, como seu favorito no festival deste ano. Achei o filme bem estranho, mas muito interessante. Estreiam nesta quinta, 16, filmes brasileiros importantes, sejam obras de ‘mercado’, blockbusters como Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo, ou títulos mais representativos de uma pegada autoral, como os novos de Cláudio Assis, o maravilhoso Big Jato, e o de Tata. Estou saindo no Caderno 2 de amanhã com as entrevistas que fiz com Claudião, Matheus Nachtergaele e Marcélia Cartaxo. Gostaria de ter tido mais espaço para dar conta de quão enriquecedoras foram as conversas com todos. Confesso que estou preocupado. Apesar de números favoráveis – segundo a Ancine, o cinema brasileiro cresceu não sei quantos por cento no próprio mercado -, a situação não anda boa. Esses números referem-se, com certeza, aos blockbusters, sem os quais nenhuma cinematografia sobrevive, mas a produção brasileira do meio, do milieu, como dizem os franceses, e os filmes autorais andam numa penúria danada. Fico consternado quando me contam que filmes como O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum, e Campo Grande, de Sandra Kogut, fizeram, respectivamente, 1600 e 1300 espectadores no primeiro fim de semana. Estou falando de público massivo, em todas as salas e praças que esses filmes estrearam. Estará voltando aquele que nunca se foi totalmente – o preconceito contra filme nacional? O que estará ocorrendo? Conversei longamente com Tata Amaral sobre essa (neo)colonização – neo por que? – que faz com que Hollywood continue ditando as cartas no mercado brasileiro. Continue, não – o avanço é maior que nunca. Vamos ver nesta quinta. O filme de Afonso Poyart sobre Zé Aldo tem cenas ótimas de lutas, em especial uma num bar de fazer inveja ao Paul Greengrass da série Bourne, que reformatou a ação em Hollywood. Big Jato é um filmaço, Trago Comigo vasculha a memória da ditadura e aborda um tema – a delação – que não tinha nem de longe, quando Tata filmou, o mesmo significado de hoje no País da Lava-Jato. Estou mais ansioso que os próprios diretores para saber se o público vai ‘acordar’ e prestigiar esses filmes que têm potencial e tem algo mais – a tão decantada ‘qualidade’. Vamos ajudar fazendo um pouco de boca a boca?

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