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De volta ao teatro, Uma Lei Chamada Mulher

Luiz Carlos Merten

16 de março de 2020 | 09h55

Tem gente que não aguenta mais as histórias de Holocausto, e até duvida que tenha havido a Solução Final nazista. Eu me impressiono e sempre acho que são 6 milhões de histórias, e cada uma tem seu viés. São inesgotáveis. Um dos melhores filmes que vi este ano em Berlim foi Persian Lessons, de Vadim Perelman, com Nahuel Pérez Biscayart, que reencontrei depois no teatro, em Paris. O garoto que dribla o comandante do campo de extermínio inventando uma língua para substituir as lições de persa – de farsí – que ele quer ter. Estou lendo O Garoto Que Seguiu o Pai em Auschwitz, uma história real. Uma frase, página 164. ‘O nazismo era como um ator canastrão tentando se passar por rei com uma coroa de papelão.’ Substituam nazismo por… Vocês sabem. A frase do livro de Jeremy Dronfield, Editora Objetiva, segue perfeita. Sábado à noite fui ao teatro. Voltei ao Sesc Ipiranga onde vi, revi e trivi – três vezes! – meu melhor espetáculo do ano passado. As Mãos Sujas, de José Antônio Peixoto de Azevedo. (Temos um café agendado, mas que nunca sai, m…) Na CartaCapital, Eduardo Nunomura havia elogiado a montagem de Lenise Pinheiro da peça de Consuelo de Castro e lá fui eu ver Uma Lei Chamada Mulher. Não conheço muita coisa da obra de Consuelo, apenas À Flor da Pele, que vi encenada e filmada. A peça conta a história de Maria da Penha, a farmacêutica cearense que casou por amor e viu sua love story virar um inferno. Confesso que, ao contrário do Nunomura, não me entusiasmei. Achei muito meia-boca, com um começo legal, mas depois vai ficando cada vez mais didática, até aquele final em jogral para fechar a história. A trama passa-se durante a ditadura e o diálogo linca o autoritarismo do marido com o do regime. Maria age na legalidade, tudo isso me pareceu interessante, a forma como seu combate virou lei, mas o que vi não correspondeu ao elogio. Mesmo assim, admito que ir ao Sesc Ipiranga tem sido uma experiência e tanto. Costumo ir de táxi e já marco com o motorista de me apanhar na volta. O desse sábado não podia – estava encerrando o turno. Vi as pessoas irem embora, fiquei sozinho naquela esquina, quase meia-noite. Aquilo é um deserto. No Saara deve ter mais movimento. Quem me manda ser cabeça dura, sem celular. Peguei um ônibus e pedi que me deixasse em alguma estação de metrô. Devo ter ido no sentido contrário, porque a única no caminho, muitas paradas depois, era a Vila Prudente. Passei por uma São Paulo que não conhecia. Barzinhos de garagem com gente na calçada, vizinhos sentados na rua. Na estação, propriamente dita, não havia muita gente – o efeito Coronavirus -, mas alguns casais jovens, obviamente apaixonados. Viajei. Fiquei pensando como as histórias começam assim mesmo. Tesão, afeto, promessas. Quantas daquelas histórias não virarão hui clos como o da Maria da Penha? Enfim, não creio ter assistido a uma grande montagem, mas se o efeito pretendido era estimular a reflexão, valeu. Para mim, para quantos mais?

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