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De volta ao teatro, Provocação, perdão, Panorâmica Insana

Luiz Carlos Merten

24 Junho 2018 | 11h19

Não sou um grande fã de Bia Lessa – nem no teatro nem no cinema, em que, salvo engano, ela estreou com Crede-Mi, livre transposição de Eleitos, de Thomas Mann, para o sertão. Meu editor da época – anos 1990 -, Evaldo Mocarzel, dificultava ao máximo que eu escrevesse sobre cinema brasileiro no Caderno 2. Ele quis morrer porque gostei masis de Outras Histórias, que Pedro Bial adaptou de Guimarães Rosa. Reconheço o empenho intelectual, a ambição de Bia, mas ela faz um teatro que, para mim, funciona mais como instalação e performance que como dramaturgia. Essa história de textos não convencionais, como proclamam seus admiradores, não me convence muito. Lá fui eu ao Teatro Novo, tão novo que, na verdade, é inacabado. Seria um hangar, senão fosse dentro de uma galeria. Dimensões de um campo de futebol – menos, Merten – e uma cenografia que se resume (e põe resumo nisso) a milhares de peças de roupa jogadas no chão. O teatro inacabado merece uma reflexão. Projeta uma ideia de precariedade para refletir o estado do mundo. Ponto para Bia. Quatro personagens em cena multiplicam-se ao vestir essas peças para falar, tipo esquetes, de muita coisa, na verdade coisas demais – sexualidade, política, violência, miséria, riqueza, desejo, gênero. A dramarturgia, ou o que Bia considera dramaturgia, é dela com Júlia Spadaccini e Jô Bilac, textos de Júlia, Jô e Sérgio Sant’Anna, com citações de Kafka e Paul Auster. Os atores são pessoas queridas por mim- Cláudia Abreu,Leandra Leal, Rodrigo Pandolfo. Confesso que, se não tivesse visto Leopoldo Pacheco em O Leão no Inverrno, pensaria que era ele, mas é Luiz Henrique Nogueira, que não conheço tanto, mas é bom. Bia cria efeitos de som nas falas do elenco – distorções, microfonia, etc; é que nem no cinema, quando começo a pensar como aquilo está sendo feito deu m… – e propõe algumas cenas realmente bonitas. Numa delas, Cláudia Abreu evolui brejeira do fundo da cena para onde estão os homens e, sem deixar de ser insinuante, atravessa os dois para se pegar com a Leandra. É, talvez, o aspecto mais interessante do que Bia Lessa está propondo no mundo do teatro – que não faz, pelo menos tradicionalmente. Aquilo está mais para artes plásticas, dança, por aí. Mas os nus frontais de Grande Sertão – que perdi por estar talvez no pior lugar no Sesc Consolação; só via o bumbum dos caras – e agora a pegação, as simulações de sexo oral, anal, os homens se comendo e as mulheres idem, tudo isso é provocativo num Brasil cada vez mais conservador. A questão, no limite, é – o que foi que eu vi? PI versa sobre o quê? Quatro pessoas que representam centenas num lixão (chic?). O Brasil? A humanidade? Como sempre, me parece que falta a Bia o que os grandes que admiro no teatro (Gabriel Villela, Eduardo Tolentino) possuem – cultura e rigor. Como Paulo Francis dizia de Ingmar Bergman – ele leu os livros dos quais Jean-Luc Godard havia ficado nas orelhas.