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De volta ao teatro, o último dia de Fauna

Luiz Carlos Merten

10 de março de 2019 | 11h06

Leandro Nunes, repórter de teatro do C2, me havia exortado a ver Fauna, mas nada me disse sobre a montagem do grupo mineiro Quatroloscinco, que faz neste domingo sua última apresentação no Sesc Pompéia. Vejam. Por um motivo que não ficou claro, atrasou quase meia-hora. Na entrada, a gente tem de tirar o sapato. Ai, meu Deus, vamos lá. Fauna, definida como peça-conversa, nasceu de uma série de oficinas promovida pelo grupo. Se pudesse, veria hoje de novo, e não necessariamente porque me entusiasmei. Fauna propõe um jogo com o público. Dois atores, o Assis e o Marcos, iniciam conversas com a plateia. Estão buscando personagens para interagir. Nada profundo, e embora exista toda uma conceituação – o objetivo é explorar a dimensão política dos afetos -, gostaria de rever justamente para perceber como funciona esse jogo, como é deflagrado. Eu mesmo, interrogado, lancei uma proposta – a dor. Não interessava. O script não prevê essa possibilidade. A garota do meu lado jogou todas as tranças possíveis. Não foi aceita porque, provavelmente, teria levado o jogo a limites incontroláveis. A personagem ideal, finalmente encontrada, manteve a interação meio anódina. ‘Ei, você me conhece? Posso me aproximar? Posso te tocar?’ Nada que desestabilize ninguém. O ponto é o jogo dos atores, que são animais vivos (fauna?) tentando sobreviver. Os últimos da espécie? Entre eles, Assis e Marcos, aflora a violência e (até) o homoerotismo, o resto, a política de afeto com o público, fica em banho-maria. Gostei de ter visto Fauna, gostei dos caras e acho que esse é o tipo do espetáculo que seria interessante rever. Como será a interação desse final de tarde? Começa às 18h30. Quem será a, ou o, personagem a interagir com a dupla? No fôlder com a apresentação, uma pergunta – quem escreverá a história do que poderia ter sido? Na minha modesta maneira de apreciar Fauna, acho que o grupo Quatroloscinco expõe, mais que a crise do mundo, a crise da dramaturgia. O público era predominantemente jovem, convidado a participar com seus celulares ligados. A escuridão é importante, muita coisa ocorre às escuras e deve ser iluminada com fósforos, mas tem gente que não aguenta e acende a tela. É o novo inferno. As pessoas chegam tarde às sessões, estou falando de cinema, e não sabem mais se movimentar no escuro. Jogam a luz do celular na cara da gente. De volta a Fauna, pergunto-me – uma plateia mais agressiva que a de ontem, no bom sentido, tornaria o espetáculo mais intenso? Assis e Marcio conseguiriam lidar com extremos? Não, porque o jogo é de cartas marcadas. A parte forte tem de ser entre eles. Vocês, que me acompanham no blog, sabem que a toda hora me pergunto – o que é o cinema? O que é o teatro? Existem os grandes diretores ‘clássicos’ (Gabriel Villela) e os pesquisadores erráticos. Se o tema de Fauna é a extinção do humano, a desumanidade do mundo, a caça ao sapato, na saída, minimiza a tensão e transforma tudo em alegria. Terminamos rindo, a garota cujo sapato foi amarrado ao meu, e sem a unha comprida dela eu estaria até agora tentando desfazer o nó. Ponto para a peça. Se o objetivo é aproximar, funciona.