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De volta ao teatro

Luiz Carlos Merten

02 de novembro de 2019 | 09h47

Com o final da Mostra, e mesmo que ainda queira ver alguns filmes da repescagem no CineSesc – acima de tudo o Affonso Uchôa da tarde de domingo, Sete Anos em Maio -, posso voltar ao teatro e já tenho duas peças programadas para ver neste fim de semana. Hoje pretendo (re)ver Os Sete Afluentes do Rio Ota, o texto de Robert Lepage, com remontagem de Monique Gardenberg – e Marjorie Estiano, Giulia Gam e Caco Ciocler na boca de cena. Estou curiosíssimo para conferir, amanhã, a releitura de Jean-Paul Sarte, As Mãos Sujas, por José Fernando Peixoto de Azevedo, que reutiliza o dispositivo de Navalha na Carne Negra – as projeções -, e eu nunca vou cansar de repetir que aquele foi meu espetáculo teatral preferido em 2018. Como em toda sexta, comprei ontem a Folha por causa do Guia e também da coluna de Djamila Ribeiro na Ilustrada. Seu texto sobre A Solidão Institucional – Será que já perguntaram quais eram os sonhos das tias da limpeza? – deu forma uma insatisfação que sempre tive em relação ao, de resto, belo filme de Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta? E se a filha de Regina Casé, em vez de ser interpretada por Camila Márdila, fosse negra? Nada contra a atriz, por favor, mas nessa hipótese o filme seria inteiramente outro. Qual a possibilidade de uma garota negra, mesmo culta, bela e inteligente, entrar na casa dos patrões da mãe com aquela desenvoltura? A tragédia do racismo no sublime melodrama de Douglas Sirk, Imitação da Vida, é que a filha da doméstica negra consegue fazer-se passar por branca. Temos uma dupla questão – social e racial. Espero não ser mal-interpretado por isso, mas, enfim, no Guia li que José Fernando Peixoto de Azevedo dialoga, no seu Sartre, com o universo do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, um dos mais importantes do cinema brasileiro. O que me devolve à Mostra – ‘meus’ filmes brasileiros nessa edição do evento, descontado o fato de que não vi o Uchôa, que sempre me apaixona, foram dois documentários e uma ficção. Banquete Coutinho, de Josafá Veloso; Outubro, de Maria Ribeiro; e o Eryk Rocha, Uma Breve Miragem ao Sol. Dos três, além de mim, apenas o Josafá foi lembrado uma vez na votação da crítica (por Orlando Margarido). É de cortar os pulsos.

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