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De volta ao futuro – o que é o cinema?

Luiz Carlos Merten

08 de março de 2020 | 10h02

Preciso confessar uma coisa. Não posso reler meus posts. Viram obras em progresso. Reli o post anterior – sobre o fim de uma era, da Cahiers e do Cinearte – e enxertei um monte de coisas sobre a dupla mítica Bergman-Rossellini, que produziu todos aqueles grandes filmes e ainda a Isabella Rossellini. Meu blog é a coisa mais secreta do mundo. Às vezes, acho que escrevo para mim, e ninguém me lê. Como não uso imagens, nem as tais palavras chaves, fico fora dos mecanismos de busca e, por isso mesmo, me surpreendo quando as pessoas comentam comigo o que escrevi. Como, além de tudo, ele possui esse aspecto de diário – journal intime -, todo mundo acha que sabe do meu momento, como eu estou me sentindo. Minhas tristezas, minhas dores, minhas alegrias. Volto à Cahiers. Nunca leio o editorial, mas me veio que o editorial da edição dos filmes plus atendus, que é de janeiro, não março, talvez lançasse alguma luz sobre o que se passava na revista. Uma venda, assim como uma separação, não se decide de inopino. Em geral são decisões que precisam ser maturadas. Não deu outra. Stéphane Delorme assina o texto e volta a Martin Scorsese – que seria a capa de fevereiro – em sua cruzada contra a marvelização de Hollywood. (Só um hiato – comprei a Cahiers com a Virginie Efira na capa na banca do Boulevard Saint Michel, em frente à fonte, quase no Sena. Comprei, também a Positif, com o Todd Haynes/Mark Ruffalo na capa (Dark Water), a Première e a Transfuge. Até perguntei pela Studio, e o cara da banca me informou que não tinha mais. Como assim, esgotou? Não, não tem mais. Como a Cahiers?) Delorme observa que a Netflix organizou uma mini-fuga dos cérebros com o trio de Nova York Scorsese, Noah Baumbach e os Safdie Brothers e isso fragiliza os estúdios históricos no Oscar. Confesso que fico dividido porque Delorme toca num ponto que me interessa – Joker é o filme que Scorsese faria, o reverso de um filme de super-herói, se não ficasse se repetindo fazendo Goodfellas 30 – em O Irlandês (isso sou eu que acho). Estamos num momento em que o futuro nos obriga a voltar ao passado. André Bazin – o que é o cinema? Scorsese diz que o universo Marvel não é cinema. Os irmãos Russo, kings of the world, tendo assinado o maior sucesso – por enquanto – de todos os tempos, Avengers Endgame, retrucam que fazem motion pictures, o que é uma forma de dizer que o debate sobre o cinema é ultrapassado. Disney, o lendário Walt, dizia que cinema é o que passa nas salas. Hoje, as salas estão fechando – o Cinearte! – e os Safdie, ‘autores’ de Uncut Gems, que Cahiers considera o filme do mês de janeiro, passam na sala das casas. Eu gostei mais de Uncut Gems/Joias Brutas, História de Um Casamento e Roma, do Alfonso Cuarón, que de O Irlandês. Gosto muito de 1917 e Joker, filmes de estúdio, e me amarro no conceito de tragédia que está na base dos filmes de super-heróis de Zack Snyder, os melhores para mim, embora para os radicais dos comics ele seja um traidor, pelas liberdades que toma com relação a personagens icônicos das HQs. Pergunto-me se não será uma coisa geracional. Stéphane Delorme acha que não. Teme que seja a destruição da arte pelos mercadores de tapetes (voadores?). O editorial atinge produtores, distribuidores, novas plataformas, e foi um conjunto desses segmentos que comprou Cahiers. O confronto, inevitável, já estava desenhado.