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De novo, não!

Luiz Carlos Merten

23 de agosto de 2016 | 18h03

Já houve recurso e tudo o mais, mas foi indeferido. Aquarius, o longa de Kleber Mendonça Filho que abre na sexta o Festival de Gramado e estreia dia 1.º de setembro nos cinemas brasileiros, foi brindado com impropriedade até 18 anos pelo Ministério da Justiça. Uma comissão do ministério emitiu o parecer técnico que embasa a decisão, mas está sendo difícil aceitar que não se trata de represália à denúncia de golpe que precedeu a apresentação do filme em Cannes. Perante a imprensa mundial, a equipe de Aquarius levantou aqueles cartazes na escadaria do Palais, denunciando o que se passava no País. Imediatamente surgiram manifestações de repúdio nas redes sociais, e assim tem sido desde então. Já houve até bate-boca com representantes de outra comissão formada para indicar o candidato do Brasil a uma vaga no Oscar. Creio que, no limite, e apesar da animosidade manifestada por Marcos Petrucelli, a história dessa comissão vai dar em pizza e o filme vai ser indicado pelo simples fato de que não existe outro melhor. Embora eu nem saiba quais são os filmes que lutam pela indicação – até onde me entendo, a lista não foi divulgada -, duvido muito que surja outro superior. E o Aquarius está tendo uma visibilidade excepcional, o filme, não o protesto, a partir de Cannes. Agora mesmo, vai para o Festival de Nova York, com pompa e circunstância. Dizer que o filme não concorre em Gramado, onde passa como parte da homenagem a Sonia Braga – que vai receber o troféu Oscarito -, por medo do diretor de passar vexame, não ganhando nada, é picuinha de mentes pequenas, e o filme é maior que isso. Aquarius inscreve-se nos movimentos populares que, no Recife, têm protestado contra a especulação imobiliária, vendo nos espigões na orla das praias a ponta mais ostensiva de um poderio econômico cujo modelo se baseia na exclusão social. É represália? Tudo faz crer que sim, porque eu que já vi Aquarius e não entendo como Boi Neon, por exemplo, que amo, teve impropriedade menor. Não estou pedindo que o filme tivesse 18 anos. Nãããooooo. A impropriedade era 16 e achei bem. Vi o filme três ou quatro vezes e sempre vi o sexo explícito, a penetração, mesmo com o ator Juliano Cazarré me jurando de pés juntos que não. E ainda havia o fato de ser sexo com uma grávida, o que aumentava a voltagem provocativa da cena. Se Boi Neon era 16, se Tatuagem era 16, por que o Aquarius é 18? Para prejudicar o filme? Se for para isso, é uma atitude burra, porque vai repercutir, vai virar assunto em Nova York, na Europa – a coprodução é francesa – e, a partir de Gramado, em todo o Cone Sul. Na área da cultura, o governo interino tem se esmerado em passar atestado de ignorância e voltar atrás. Foi assim quando anunciou a extinção da pasta da Cultura, quando interveio na Cinemateca etc. De novo? E depois reclamam quando, em qualquer manifestação cultural que se preze, surge o grito de guerra – primeiramente…

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