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De Matera a Platero, e ao pai de Francesca, eu me lembro

Luiz Carlos Merten

08 Outubro 2018 | 09h05

Matera, no Sul da Itália, acaba de ser escolhida como capital europeia da cultura para 2019. Leio a notícia na Carta Capital desta semana, que tem as colunas de Mino Carta e Afonsinho. Os togados, no Brasil atual, metem mais medo que os fardados… Nirlando Beirão, num texto chamado O Cinema Parou Aqui, viaja pelos filmes rodados na região e afirma que, a se julgar pela copiosa filmografia bíblica, Matera é a mais perfeita simulação da sacrossanta Jerusalém de Cristo. Pasolini (Il Vangilo secondo Matteo), Mel Gibson (A Paixão de Cristo), Francesco Rosi (Cristo si È Fermato a Eboli), todos filmaram em Matera. E tem o diálogo de Alain Delon e Annie Girardot, quando Rocco reencontra Nadia, em Rocco e Seus Irmãos. Ele está terminando o serviço militar obrigatório, ela sai da cadeia. Tomam um café e ele conta a história dos infelizes que, no Sul arcaico, se rebelaram contra a autoridade e foram massacrados. Em Matera… Aquele diálogo, e a beleza de Delon, da jovem Girardot, nunca deixaram de ecoar no meu imaginário. Sempre pensei nessa cidade, Matera. Sigo viajando nas lembranças. Há alguns anos, Dib Carneiro e eu estivemos em Florença. E fomos jantar na casa dos pais de Francesca Della Monica, numa ferma nos arredores da cidade. Um lugar de sonho. A casa de pedra, a horta, o pomar. O bom vinho italiano. Quem me acompanha no blog sabe quem é Francesca, mas não custa acrescentar – artista, pedagoga, pesquisadora da voz, Francesca tem sido responsável pela preparação vocal dos elencos de Gabriel Villela. Naquela noite inesquecível, conversamos, o pai de Francesca e eu, sobre cinema, o que mais? O bravo cinema italiano. O pai de Francesca morreu nesse fim de semana, na Itália. Confesso que, estando fragilizado, chorei, menos por ele que por nós. Esse horror que estamos vivendo. Mas, assim como a morte não é o fim de tudo e todo final carrega a promessa de um recomeço, lá vamos nós para o segundo turno. Ainda existe esperança, tênue. Meu abraço mais carinhoso a Francesca. Aquele casal de velhos me cativou. Misturo tudo, como sempre. Aqui na minha mesa tem um boneco de Ferdinando. O touro quando filhote. Ele me olha com seus olhos estalados e maravilhados de quem descobre o mundo. Desde que vi o boneco da animação de Carlos Saldanha, apaixonei-me. Madalena, a Madá, filha de Jussara Guedes, veio me ajudar a tentar colocar ordem na confusão de livros e DVDs que havia virado minha casa. De alguma pilha de livros ela resgatou a edição bilíngue de Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, com as ilustrações de Jabier Zabala. Um burrico não tem nada a ver com um tourinho, mas a emoção desse momento – Matera, o pai da Francesca, a eleição, Platero – me enternece. Jiménez… A primeira vez que li Platero foi numa edição da Globo (a editora, em Porto Alegre, não a TV). E lembro que não muito tempo depois vi o Balthazar, A Grande Testemunha, de Robert Bresson. Melancolia. O poeta visita o túmulo do burrinho e se pergunta. ‘Platero, amigo, se como imagino estás agora num prado do céu e levas em teu lombo peludo os anjos adolescentes, por acaso me terás esquecido?’ O esquecimento, l’oubli, que está no epicentro do texto de Marguerite Duras em Hiroshima, obra-prima de Alain Resnais. Essas viagens me (re)animam. Sinto que posso mover o mundo – meu mundo – só com a força da imaginação. Mestre Yoda. Eu me lembro…