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De JB (não o Medeiros, grande jornalista) à nouvelle-vague

Luiz Carlos Merten

12 de novembro de 2020 | 20h19

Ele pode ser a criatura mais escrota da face da Terra – ou será seu ídolo, Mr. Trump? -, mas não há como negar que o presidente sabe jogar para sua torcida. Andava quieto, ou pelo menos tentando, mas agora que o assunto voltou a ser a eleição de 2022 – a única coisa que importa, além da vacina contra a Covid -, Bolsonaro voltou a fazer declarações homofóbicas. Maricas, boiolas, roupas cor de rosa. Ele com certeza vai carregar no tom, se não for freado pelo Supremo, porque só se reelege se a oposição de esquerda não se unir e ele continuar satisfazendo à massa de ignorantes que o sustenta e ao ‘sistema’ que apoia Paulo Guedes. Esse é outro que o trem não pega porque não entra na linha. Continuo fazendo minhas entrevistas – Daniel Filho, de Boca de Ouro; Alejandro Landes, de Monos; e Nora Fingscheidt, de System Crasher, que no Brasil virou Transtorno Explosivo. Devo ter uns 40 links para ver, de filmes do Mix Brasil, do Festival Varilux do Cinema Francês e do Festival de Cinema Italiano, o da Bruna Galvão. Escrevo o post e olho, aqui ao lado, para o lançamento da Companhia das Letras com os roteiros de Bacurau, Aquarius e O Som ao Redor. Kleber Mendonça Filho e suas mulheres de ficção – Maeve Jinkings, Sonia Braga e Barbara Colen ilustram a capa do volume. A edição é acompanhada por textos do próprio Kleber e de Ismail Xavier. É curioso – abri o volume e fui ler um trecho ao azar. Encontrei esse, do Kleber – ‘Descobri que os roteiros já eram os filmes, e escrever essas peças de literatura aplicada já significava fazer cinema.’ Lembrei-me de Michelangelo Antonioni, na abertura da edição italiana dos roteiros de seus filmes que compõem a trilogia da solidão e da incomunicabilidade – A Aventura, A Noite e O Eclipse – e ele escreve, meio desestimulando o espectador feito leitor, que roteiros ‘são páginas mortas.’ Essa afirmação de um grande, tão grande quanto Antonioni, sempre me impressionou muito. De alguma forma fecha com o que diziam os críticos da revista Cahiers du Cinéma que forjaram a nouvelle vague. Para eles, que defendiam a politique des auteurs, ‘tout est dans la mise-en-scène’. Em Hollywood, nos anos dourados, os estúdios e os produtores controlavam a escrita e a interpretação, mas os grandes diretores mantinham a independência justamente na filmagem. Era ali que imprimiam sua marca nos filmes. Tergiverso, eu sei, mas já que cheguei aqui, à nova onda, acho interessante destacar que o Varilux deste ano presta homenagem a Acossado/À Bout de Souffle, de Jean-Luc Godard, que está completando 60 anos. O que me leva a uma história que Andrew Sarris adorava contar. Andrew quem? Justamente em 1960 ele almoçava, ou jantava, não sei, com Henri Langlois. Falava do seu entusiasmo pelos filmes de François Truffaut (Os Incompreendidos), Alain Resnais (Hiroshima, Meu Amor) e Godard (Acossado), e o lendário dirigente da Cinemateca Francesa lhe disse uma coisa que, na época, lhe pareceu meio estranha. ‘Cuidado com (Claude) Chabrol.’ Pois eu entendo perfeitamente. Hiroshima está no meu panteão, gosto muito de O Desprezo e O Garoto Selvagem, mas, como a trilogia de Chabrol por volta de 1970, não há. A Mulher Infiel, A Besta Deve Morrer e O Açougueiro. Com algum exagero, reconheço, quero dizer que bastam esses três filmes para resumir a existência do cinema francês. E mundial.

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