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De Dolly a Mr. Majestyk, o cinema que se valoriza com o tempo

Luiz Carlos Merten

26 Dezembro 2016 | 16h11

Meu editor – Ubiratan Brasil – é louco por musicais e eu brinco com ele que isso às vezes afeta sua visão (da arte e do mundo). Hoje, por exemplo, na redação, Bira me contou que havia comprado Blu-ray de Hello, Dolly e reviu no fim de semana o musical de Gene Kelly com Barbra Streisand. Os anos 1960 viram os mestres do gênero despedir-se, mas foram espetaculares. Amor, Sublime Amor/West Side Story, My Fair Lady e A Noviça Rebelde ganharam o Oscar, e A Noviça foi um sucesso planetário que salvou a Fox da falência. Lembro-me que, em Porto Alegre, o filme completou um ano em cartaz, e virou moda comemorar a data no Marrocos, no Menino Deus, o que aumentou ainda mais longevidade do filme em cartaz. Mas algo estava mudando. Nos anos 1940 e 50, a unidade de Arthur Freed, o grande produtor de musicais da Metro, mantinha aquecidos bailarinos, coreógrafos, cenógrafos, diretores de arte etc, todos prontos para fazer cantar e dançar o mundo. Com o tempo, a unidade foi desmobilizada, musicais ficaram caros e Hollywood começou a fazer só os que já vinham avalizados da Broadway. O problema é que Camelot, A Moedinha do Amor, Alô, Dolly e Os Aventureiros do Ouro/Paint Your Wagon, todos superproduzidos, naufragaram nas bilheterias. O musical tornou-se um gênero maldito, mais ou menos como ocorreria também com o western, e foram raros os filmes e autores que quebraram, a escrita – Bob Fosse, com Cabaret, em 1972, e 30 anos depois um discípulo dele, Rob Marshall, com Chicago. Toda essa conversa para dizer que pouca coisa sobrou no meu imaginário de Hello, Dolly – o dueto de Barbra e Louie Armstrong. Bira me jurou que o filme foi uma (re)descoberta para ele. Embora longo, ele achou divertido e um deleite para os olhos e ouvidos. Não seria a primeira vez que um filme se beneficiaria do tempo. A história do cinema é cheia de casos de filmes malditos, adiante de sua época, por aí. Talvez nem falasse sobre o Hello, Dollar – como Ruy Castro disse certa vez que o filme jamais teria condições de vir a ser -, mas passei pela banca do Conjunto Nacional, na Paulista, e comprei um monte de revistas. A nova Film Comment, Cinemascope, Empire, Total Film e Cahiers du Cinéma, a edição de outubro – para vocês verem como as revistas europeias demoram a chegar. Cahiers dedica sua capa a Jim Jarmusch, Paterson, grande filme. Folheando a revista, encontrei uma página inteira de publicidade sobre Mr. Majestyk. Charles Bronson! O filme está saindo em DVD e Blu-ray, com direito a um livreto de 68 páginas. A referência definitiva de Quentin Tarantino! Não que isso seja importante para mim, mas qualquer motivo que ajude a repensar a obra e a figura de Richard Fleischer já me deixa feliz. Mr. Majestyk é de 1974 e foi feito naquele bolo com No Mundo de 2020, A Morte do Chefão, Os Três Discípulos do Diabo, Mandingo, Ashanti etc. Todos filmes de gêneros, de diferentes gêneros. Só Fleischer para transitar num território tão variado, e sempre atraído por personagens em choque com seu tempo e o mundo, mentes confusas ou enfermas, visionários como o Capitão Nemo de 20.000 Léguas Submarinas e o Che de Causa Secreta, com Omar Sharif, que a Fox trucidou. Fleischer fez filmes que estão no meu panteão – 20.000 Léguas, Vikings, Barrabás, O Homem Que Odiava as Mulheres/The Boston Strangler. Encontrei outro dia, em outra revista, um texto resgatando Estranha Compulsão, sua versão da célebre história de Leopold e Loeb, e o texto resgatava também o ator Dean Stockwell. Agora, Mr. Majestyk e essa referência a Tarantino, de quem seria uma das obras cultuadas. Misturei de forma aleatória Kelly e meu amado Fleischer. Vejam como são as coisas. Fui pesquisar e no começo do mês foi seu centenário de nascimento, que me passou batido – 8 de dezembro de 1916, filho do lendário animador Max Fleischer, criador de Betty Boop. Fleischer (filho) morreu em março de 2006, há dez anos. Os filmes sobrevivem e estão sendo (re)descobertos. François Truffaut estava certo – a idade cai bem nas obras que o tempo respeita.