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De como Michael Craig me levou ao incesto de Vertigem

Luiz Carlos Merten

07 Maio 2017 | 02h18

Vamos por partes, como diria o esquartejador. Vou encerrar um post que havia deixado pelo meio ao sair para o almoço, que emendei com o Festival Finos Filmes, e o debate do ex-prefeito Fernando Haddad, da psicanalista Maria Rita Kehl e do cientista social Cláudio Couto sobre cinema e política, sensacional, e se vocês pensam que chega… Ledo engano. Ainda havia o teatro de câmara do Eduardo Tolentino, na própria sede do Tapa, na Barra Funda, uma montagem que ele vem fazendo para pequenos grupos de uma peça de Pirandello – O Torniquete -, seguida de bate-papo. Vou deixar para amanhã, porque foram duas experiências fortes, mas preciso encerrar a série de posts encadeados que havia começado. Como uma coisa leva à outra, resolvi pesquisar sobre Michael Craig, que, afinal, tomou o papel do marido de Claudia Cardinale em Vagas Estrelas da Ursa. Tenho de admitir que o filme talvez tivesse saído diferente. Tab, com certeza, realçaria o incesto de Sandra/Claudia com o irmão, Jean Sorel, e acho que, nesse sentido – sorry, Tab – a virilidade de Michael terminou servindo a Visconti, embora não duvide que Luchino teria nos mostrado alguma dimensão que o próprio ator norte-americano desconhecia. Michael fez filmes como Doctor in Love, A Ilha Misteriosa, Modesty Blaise e um grande etc. Mas em 1960 encontrei um título que me despertou lembranças – The Angry Silence, Momentos de Angústia. O ex-fotógrafo Guy Green dirigiu o roteiro de Bryan Forbes que venceu o Bafta e foi indicado para o Oscar. Era um daqueles filmes que, na polarização político da época, não conseguíamos – nós que amávamos a revolução – deglutir muito bem. Richard Attenborough fazia o operário que furava a greve, Pier Angeli era sua mulher e Michael Craig dava em cima dela, aproveitando a fragilidade do casal. Lembrando assim, no retrospecto, tenho a impressão de que Leon Hirzman refez essa história, 20 anos depois. Gianfracesco Guarnieri ajuda Fernanda Montenegro a catar feijão no desfecho de Eles não Usam Black-Tie. Selecionam os grãos ruins, que jogam fora – o filho fura-greves, interpretado por Carlos Alberto Riccelli. Mas a coisa não é assim tão simples em Momentos de Angústia. Richard Attenborough não fura a greve porque é arrivista, como também não o é o pai de Billy Elliot no filme de Stephen Daldry, de 2000. Amo Billy Elliot, o filme, pelo pai. Ao contrário de Attenborough, que não tem consciência de classe, o pai de Billy tem, mas o amor pelo filho é maior. Ele, no ônibus dos fura-greves, encarando os colegas grevistas, me desmonta. Fiquei com vontade de rever Momentos de Angústia. O que esse filme tem a nos dizer hoje? Seria profético de alguma coisa que não sabíamos ver, ou não queríamos entender? O curioso é que o post incompleto parava aqui, com Bryan Forbes. Poderia ter deletado – já fiz isso tantas vezes -, mas ele ficou comigo, me acompanhou a tarde toda. Não conseguia parar de pensar no cara. Em 1961, Forbes estreou na direção com Whistle Down the Wind, que no Brasil se chamou Também o Vento Tem Segredos. Um fugitivo, que matou a mulher, esconde-se numa fazenda. Alan Bates é o ator e na casa habitam três garotas (Hayley Mills é uma), que o tomam pela encarnação de Cristo, em sua segunda vinda à Terra. Será que o espanhol Victor Erice se inspirou nesse filme para fazer O Espírito da Colméia, substituindo o Cristo por Frankenstein? Será? Tenho de admitir que, na época, esse Bryan Forbes mexia muito comigo. Logo em em seguida ele emendou The L Shaped Room/A Mulher Que Pecou, com o grande papel dramático da minnelliana Leslie Caron. Garota do interior vai trabalhar na cidade grande, conhece um cara, engravida, aborta e tudo no quarto em forma de L, onde vive o melhor e pior de sua vida. O quarto de Jack não era nada, gente, mas, no Dicionário de Cinema,Jean Tulard se pergunta, alarmado, de onde vem a fama, particularmente grande na Inglaterra, de Forbes? Tulard desconsidera os filmes de que falo para dizer que ele fracassou com sua adaptação de Giraudoux, A Louca de Chailot, e não poupa a visão da guerra de O Rei de Um Inferno. Forbes ainda realizou o cultuado Esposas em Conflito, sua versão de As Esposas de Stepford, em 1975, mas quero lembrar de Vertigem/Deadfall, de 1968. Que filme era aquele? Michael Caine liderava grupo num grande assalto e se envolvia com a mulher de Eric Portman, a italiana Giovanna Ralli, que na verdade era filha dele, vivendo de forma incestuosa com o pai. E não era tudo – Portman era homossexual assumido, tendo integrado seu jovem amante à família. E tudo terminava, trágica e hitchcockianamente, na vertigem do título, Deadfall, a queda mortal – de quem? Procurem pelo filme no YouTube. Com trilha de John Barry e tema cantado por Shirley Bassey, foi um filme que, na época, me desconcertou. Já escrevia em jornal, desci a lenha, mas no fundo, até hoje, existem coisas daquele filme que ainda me assombram. Pronto, falei. Fui emendando uma coisa na outra, e tudo começou com Tab Hunter, Michael Craig e Vagas Estrelas. As coisas juntam-se, não diferem tanto, não? Amanhã dou conta dos Finos Filmes e do teatro de câmara do Tolentino. Vai ser porreta.