As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De Broca? Nada a ver, mas espelho de O Retorno do Herói reflete o mundo

Luiz Carlos Merten

15 Junho 2018 | 10h06

Fui ver ontem O Retorno do Herói no Festival Varilux. Confesso que tinha expectativa pelo filme de Laurent Tirard desde que, procurando informações no site do festival, encontrei trecho da crítica de uma tal Guillemette Odicino, dizendo que é preciosidade com roupas de época, evocando grandes momentos de Philippe de Broca e Jean-Paul Rappeneau. Jean Dujardin faz militar que parte para a guerra depois de se comprometer com a irmã de Mélanie Laurent. Ele some por alguns anos, não dá notícias, a irmã entra num surto depressivo, vai morrer. Mélanie, para reanimá-la, começa a escrever cartas atribuídas a Dujardin. Cria um personagem fictício – afetivo, heróico. Quando ele termina por reaparecer, é o patife de sempre. Mélanie fica dividida entre manter a farsa ou destruir sua criação, mas a essa altura ela já se apaixonou etc etc. O filme é bem-feito, divertido. Tem, nas última imagem, um twist interessante, que não vou revelar qual é, claro, mas achei decepcionante. A decepção tem a ver com o espírito da época. Há apenas 50 anos o mundo era outro quando De Broca fez suas comédias e filmes de aventuras com Jean-Paul Belmondo. Cartouche, O Homem do Rio, As Fabulosas Aventuras de Um Playboy, O Magnífico. Não sei se éramos mais ingênuos, românticos. Eu era. O mundo globalizado ficou muito mais cínico. O personagem de Dujardin, o Capitão Neuville, tem a cara desse mundo novo. Quanto mais canalha ele se revela, mais seduz as pessoas ao redor – as mulheres, os homens. Elas fazem fila para dar para ele; eles brigam para investir em seus empreendimentos irreais. Neuville faz o que faz, provocando a risada final de Mélanie. A criatura escapa à sua criadora. Surpreende-a justamente por seu absoluto descompromisso com a ética, a virtude. O filme de Laurent Tirard tem seus méritos, não nego, mas, como espelho para refletir o mundo, o que mostra não é nem um pouco agradável. Fico, no meu imaginário, com De Broca. O único autor de comédias da nouvelle vague sempre foi minimizado, mas, para mim, O Amante de Cinco Dias, com Jean-Pierre Cassel, o ator fetiche de sua primeira fase, e Jean Seberg, é uma obra-prima. Mamãe arranja um amante, começa a negligenciar a família. O filho pergunta ao pai onde ela está? François Périer, o corno manso mais patético do cinema, explica, a frase talvez não seja exatamente essa, mas o sentido, sim. “Mamãe se atrasou porque de salto alto fica mais difícil de andar.” O salto alto como metáfora. Laurent Tirard dirigiu O Pequeno Nicolas e Um Amor à Altura, com Jean Dujardin como anão. Tirard ama a bêtise das crianças e gosta de mostrar um mundo de adultos infantilizados. Donald Trump encontrou-se esta semana com Kim Jong-un. Tenho cá minhas restrições a O Retorno do Herói, mas sou forçado a admitir que o espelho de Tirard reflete o mundo tal qual é, não como gostaria que fosse.