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Dário de Berlim Dia 3

Luiz Carlos Merten

23 de fevereiro de 2020 | 06h21

BERLIM – Havia preparado as duas edições do diário para o Estadão online, num estilo mais jornalístico, menos pessoal. Agora, no blog, devo prosseguir no tom a que vocês já estão acostumados. Estrou redigindo o dia 3 no início do 4, pela manhã, aqui em Berlim. Ontem, sábado, assisti a cinco filmes, praticamente emendando um no outro e com breaks para almoçar e assistir, parcialmente, à coletiva de Philippe Garrel, porque queria vê-lo e ao seu elenco. Passou ontem à noite o brasileiro da competição, mas a crítica de Todos os Mortos está embargada, até a exibição oficial desta noite.
Competição
Assisti ontem ao melhor filme da competição, até agora. E foi uma surpresa, para mim. Por princípio, não leio nada sobre os filmes que vou ver, nem sinopse. Espero sempre ser surpreendido, e Kelly Reichardt me surpreendeu com First Cow. Outro filme de época, precedendo All the Dead Ones- título internacional de Todos os Mortos. O desbravamento do Oregon, no século 19. Algo no espírito de Jack London, suas corridas do ouro no Klondike. A fronteira – da civilização e da barbárie? Um universo masculino brutal, mas que a diretora – será o tal olhar feminino? – revela não sem estranhamento. Os personagens são ‘diferentes’, um cozinheiro e um chinês. Unem-se numa cumplicidade a que não falta um componente homoafetivo, mas sem chegar à Brokeback Mountain. E, por falar na montanha, a paisagem áspera é personagem. Kelly e seus atores me fizeram lembrar Jeremiah Johnson, o clássico de Sydney Pollack com Robert Redford. Gostei.
A garotada não gostou do Garrel. Deve ser uma coisa geracional. O mundo mudou muito desde a nouvelle vague, e que Garrel começou a fazer cinema, mas ele não muda, ou muda a conta-gotas. Garrel continua filmando suas histórias de amor héteros, a reverenciar François Truffaut – a quem citou duas ou três vezes na coletiva. na era do LGBT+Q, Garrel não põe um gay nem na profundidade de campo. A educação sentimental é sempre vista de um ponto de vista masculino, e até machista. O garoto vai fazer o exame de admissão para escolas de menuisier em Paris. Envolve-se com umas jovem. De volta à casa, à espera do resultado, reencontra antiga colega, com quem se envolve. Uma, duas, falta a terceira. Essa, ele encontra de volta a Paris. É predadora, como ele. Leva um sujeito para dentro de casa. Sai da cama de Luc, o protagonista, para a de Paco, mas ele não tem estrutura para aguentar o tranco. E ainda tem o problema da relação com o pai, que vai fazer Luc desabar, emocionalmente. Ninguém filma o amor em preto e branco como Garrel, no cinema atual. De cara, Luc encontra Djemila no ponto de ônibus. A atriz é a mesma de Adeus à Noite, de André Téchiné – Oulaya Amamra. Ele é André Wilms. Os olhares, os gestos. Sente-se, palpável, o desejo. Garrel enche o filme de nus frontais femininos. Garrel insinua a questão social francesa. Dois bêbados, possivelmente eleitores de Marina Le Pen, chamam o herói de traidor e querem briga porque, na saída das boate, ele está com a garota negra, namorada do amigo, também negro. Adoro a narração em of, tão típica do autor, mas a jovem crítica brasileira aqui na Berlinale queria vomitar. Preferem o trash argentino El Prófugo, que não deixa de ser a pior versão de Invasores de Corpos que já vi. O que me parece indiscutível é que Garrel me parece estar sobrando nessa edição. Cinema autoral, sim, mas de outra era. Vou ficar sinceramente surpreso se, na partilha dos prêmios, ele levar alguma coisa.
Berlinale Special
Posso estar ficando gagá – não creio -, mas o filme de que mais gostei, até agora, passou fora de concurso. Persian Lessons tem direção do russo Vadim Perelman. De volta ao Holocausto. Tem gente – de bem – que diz quer não aguenta mais o tema. Eu sempre me surpreendo como ele ainda comporta ângulos novos para abordar. Surpresa, por qwue? Afinal, são 6 milhões de histórias possíveis. Só falta, o que nenhum direitista fdp, encampar no cinema a tese de que o Holocausto não houve, já tão difundida em certas redes. Persian Lessons é sobre judeu que, levado ao campo de extermínio, se faz passar por persa. Um dos comandantes do campo sonha abrir um restaurante em Teeerão, após a guerra. Toma o prisioneiro como seu professor para lições de farsi. Nahuel Pérez Biscayart, que também está em El Prófugo, faz o jovem judeu que, movido pelo instinto de sobrevivência, inventa uma língua. Ela língua imaginada o aproxima do oficial alemão, que termina se abrindo para ele. Criam – um laço? Interessante comparar esse filme com Jojo Rabit, com A Vida É Bela. Vadim Perelman mostra a vida no campo – os alemães como nunca se viu. Pequenas intrigas de sexo e poder. Uma das garotas alemãs, de pirraça, inventa uma história de que o chefe do campo tem o pinto pequeno. Ele a envia para o front. São coisas que o cinema não costumas mostrar, nesse gênero de filme. No finasl, Perelman não arregla. A fantasia entra em choque com a realidade, vira tragédia – é uma tragédia. E tem, no filme, o tema dos irmãos. Dois irmãos prisioneiros italianos, o chef nazista e seu irmão que pode estar em Teerã. Perelman fez um filme com camadas. Seu tema é a linguagem. Gostei.
Outro programa da Berlinale Special. Time to Hunt, de Yoon Sung-hyung. Cinema de gênero sul-corerano. Homem sai da cadeia e reúne grupo para assaltar cassino. O plano dá certo, mas logo o grupo está sendo caçado. Uma história de vingança – brutal. Esses coreanos não são moles.

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