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Daqui a pouco, 12 de setembro!

Luiz Carlos Merten

11 de setembro de 2019 | 22h53

Participei ontem, no Belas Artes, de um debate da série Estadão/Pandora, sobre Adeus à Noite, o longa de André Techiné com Catherine Deneuve como avó que tenta impedir o neto de se integrar ao Estado islâmico como terrorista. Não guardei o nome, mas um espectador fez uma intervenção que achei muito interessante. O cinema, no pós-11 de Setembro, e não apenas o de Hollywood, não consegue olhar para o islamismo senão como radicalização e ameaça. Lembrei-me de, e até contei uma história que não há de ser novidade para meus leitores fieis. Mas errei, confesso. Citei Rhonda Fleming, quando a atriz em questão era Virginia Mayo. O sultão de Bahrein foi a Hollywood pedi-la em casamento. Ofereceu abrir mão de seu harém para que ela fosse sua única esposa e disse – a frase que nunca esqueci – que a beleza de Virginia era a prova viva da compaixão de Alá pelos homens. Sempre achei essa história linda, a noção de um Deus compassivo. Alá, Alá, meu bom Alá! Terei amanhã outro debate no Belas Artes. A Pandora comemora seus 30 anos com uma seleção de grandes filmes que distribuiu. Inácio Araújo e eu vamos debater, à noite, O Passageiro – Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni, com Jack Nicholson. Tenho de fazer uma confissão. Há 26 anos, nunca deixei de comemorar meu aniversário, em 12 de setembro. Este ano, estava decidido a fazer diferente. Ia viajar. Mas aí pintou o debate, e eu aceitei. Em princípio, seria dia 15, mas por uma questão de arranjo de datas, terminou fixado em 12. Vou comemorar meu aniversário – 74 anos – num debate público. Daqui a pouco, menos de duas horas, já estarei acrescentando mais um ano. O segundo ano do resto de minha vida. Tanta coisa ocorreu desde o ano passado. Hoje, ainda estamos no 11 – mais do que no ataque às Torres Gêmeas, penso sempre neste dia no bombardeio de La Moneda e no golpe que, no Chile, depôs o governo da Unidade Popular de Salvador Allende. Como a direita faria no Brasil, paralisando o governo de Dilma Roussef no Congresso para alimentar o fantasma da incompetência, o golpe começou no Congresso chileno e, meninos e meninas, Doris e eu estávamos lá, um ou dois meses antes. Assistimos à derrocada de um sonho. Aquilo me marcou muito. Não seria, para o bem e para o mal, o cara que sou sem passar por aquela experiência. Confesso que estou muito suscetível. O 11 de 9 sempre me deixa assim. Vi hoje pela manhã, numa cabine no Belas Artes, o filme alemão O Menino Que Fazia Rir, de Caroline Link. É a biografia de Hans-Peter Kirkeling, um dos mais famosos comediantes da Alemanha. Paula Ferraz insistiu que eu visse para entrevistar diretora. Fui sem muita expectativa, mas amei. A diretora filma a infância de Hans-Peter, quando ele descobriu – em casa, na escola – a sua vocação para fazer rir. Para ele, é uma época de perdas – morrem a mãe, a avó. Mesmo sofrendo, o que Hans Peter descobre é que carrega a família com ele. Imitando seus membros, guardando-os no coração. É um filme sobre afetos, no plural. Neste ano, também sofri muitas perdas. A vida segue, apesar das decepções. Vivi hoje um momenbto singular. Não sei se vocês acreditam em mim. Há 15 anos, numa coleção chamada Escritos de Cinema, a Prefeitura de Porto Alegre editou um livro com a seleção de minhas críticas na fase gaúcha. Uma amiga me pediu o volume. Peguei hoje, e depois do filme alemão, um tanto suscetível, estava no táxi, indo para o jornal, quando li – pela primeira vez! – a apresentação de Enéas de Souza e a orelha do (eterno) Professor, com maiúscula, Ruy Carlos Ostermann. Esses textos lavaram minha alma. Como se estivesse me refletindo num espelho, me deram uma perspectiva diferenciada de mim mesmo. Me reconciliaram comigo? Talvez. Estou pronto para os 74, quem sabe para os 75.

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