Daniel Ribeiro, na trilha de Van Sant e Almodóvar
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Daniel Ribeiro, na trilha de Van Sant e Almodóvar

Luiz Carlos Merten

16 de fevereiro de 2014 | 21h34

 

BERLIM – Não sei nem explicar o que ocorreu. No sábado, enviei minha matéria de encerramento do festival para o Estado e ela só chegou às primeiras horas de domingo, após o fechamento da edição. Meu editor resolveu mantê-la para amanhã (de vocês, já estou na segunda) e assim fiquei com uma matéria sobrando, que posto agora. Estou me despedindo de Berlim. Até 2015 (espero!). Embarco daqui a pouco para Paris, onde fico uns dias. Nem consegui dar conta da agitação dos últimos dias da Berlinale. Assisti à Bela e a Fera de Christophe Gans, com Léa Seydoux, e quase na sequência vi a cópia restaurada da versão que Jean Cocteau fez da história de Mme. Leprince Beaumont, com seu amado Jean Marais. Fui lá pedir a meus amigos da Unifrance para entrevistar o Gans. Pô, o cara fez Crying Freeman e Pacto dos Lobos. Dou conta das duas versões ao voltar, mas nãso resisto a relatar o que me contaram os amigos portugueses. Na terrinhas, A Bela e a Fera é A Bela e o Monstro. Não é a mesma coisa, até em termos do que Gans quer dizer. A bestialidade está no centro de seu cinema. Ontem, último dia do festival, achei tempo para ver dois filmes que tinha perdido. Gostei mais de ver Cesar Chávez, de Diego Lunas, que o Yves Saint Laurent de Jalil Lespert, mas também dou conta disso depois, ao voltar. Na sequência, leiam o texto feito para o impresso, e que sobrou:

BERLIM

Gus Van Sant e Pedro Almodóvar já receberam o Teddy Bear. Daniel Ribeiro está em boa companhia. O garoto que venceu o Urso de Ouro gay em Berlim tem motivos de sobra para rir à toa. Ele fez um filme pequeno, veio a Berlim, um dos maiores festivais do mundo, e imediatamente criou-se o boca a boca. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ganhou o prêmio da crítica e foi o segundo filme preferido do público na seção Panorama. Unir essas duas pontas, o público e os críticos, não é para qualquer um e Daniel ainda ganhou o Urso da militância.

Talvez seja isso o que importa, afinal. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho vai estrear nos cinemas do Brasil em março – a distribuição é da Vitrine Filmes, de Sílvia Cruz -, quando o público, bombardeado por novas informações (e emoções), talvez já esteja se esquecendo do Félix da novela Amor à Vida. Walcyr Carrasco fez história ao mostrar o primeiro beijo gay da TV. Muitos tentaram, mas não conseguiram, e se ele conseguiu foi porque fez de Félix um personagem com quem o público podia se identificar, independentemente de suas preferências.

Daniel Ribeiro também conseguiu esse milagre. Desde o início era seu maior desafio. Ele não queria fazer de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho um filme de gueto. O filme conta a história de um garoto, deficiente visual, que descobre o amor e sai do armário. A beleza de Hoje é que o espectador não fica dilacerado pela compaixão – além de cego, é gay, coitadinho. Não! A descoberta do amor é universal, e o que é atraente no filme, afinal, é uma interrogação deveras intrigante. Se a pessoa não enxerga, como pode haver amor à primeira vista? Antecipe-se à estreia. Entre na rede, no site da Berlinale. Veja as entrevistas de Daniel e o trailer. Quando Gabriel, o ‘outro’ jovem, entra na aula e em sua vida, o detalhe é do ouvido de Leonardo (Ghilherme Lobo). O trabalho com os olhos desse garoto, para expressar a cegueira, é coisa de Oscar. Mas, neste momento, ele ouve ouve alguma coisa que talvez o perturbe, como Gabriel vai ver alguma coisa que também o perturba, e atrai, quando ambos ficam nus para tomar banho.

Brasileiros radicados na Alemanha, representantes da imprensa brasileira, todo mundo ficou tocado pelo filme. Há um desejo de que a simplicidade de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho seja uma ferramenta – uma bandeira? – na luta contra a homofobia que ainda grassa no Brasil. O belo Praia do Futuro, de Karim Ainouz, move-se num universo próximo. Donato (Wagner Moura) abandona a família, o Brasil para viver sua história de amor no Polo Norte, como lhe atira na cara o irmão. ‘Te escondeste para car o c…!’, berra o irmão, e a cena é dilacerante. O passado, na figura de Jesuíta Barbosa, persegue Wagner. O ex-Capitão Nascimento já disse que vai se jogar de cabeça para que Praia ganhe o público no País. É o cinema que entra em campo contra o preconceito.

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