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Dançando no escuro, o cinema de Lasse Hallstrom

Luiz Carlos Merten

09 de julho de 2017 | 12h51

Em 43 anos de carreira, desde 1974, Lasse Hallstrom fez 25 longas, o que já seria considerável, mas se você pesquisar verá que sua videografia também é extensa e que ele fez, por exemplo, os vídeoclips mais famosos do ABBA, desde Mamma Mia até Dancing Queen e The Winner Takes It all. Para a maioria da crítica, Lasse é caça-niqueis, rei do choro etc. Eu cá discordo. Acho que é um belo narrador, e que consegue tornar palatáveis, no cinemão, temas muitas vezes árduos. Já vi filmes de Lasse Hallstrom sobre abuso, morte, eutanásia, drogas, mas, claro, no imaginário de todo mundo ele é o diretor dos filmes de, ou sobre, cachorros. Gosto muito, muito mesmo, de Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador e A 100 Passos de Um Sonho, o melhor filme (ever?) de gastronomia, uma espécie de versão live action da obra-prima Ratatouille. Tudo isso para dizer que vi ontem, on demand, As Quatro Vidas de Um Cachorro. Não sei dizer por que havia perdido o filme nos cinemas – estava viajando, talvez. Gostei, e por curiosidade fiz uma pesquisa para ler o teor das críticas que o filme recebeu. É de cortar os pulsos. Condescendentes, na melhor das hipóteses. Os adjetivos variavam de ‘adorável’ a ‘superficial’. O pai bêbado de Ethan na primeira história – engano-me ou é a segunda, e ‘Bailey’, o cão, teve cinco vidas? Houve uma bem rapidinha no começo, para confundir, não? – foi definido como ‘muleta’ para criar algum conflito. Vamos ver se entendi – em Rocco e Seus Irmãos, o filme de minha vida, a dona da lavanderia (Suzy Delair) e o gay que frequenta a academia (Roger Hanin) são muletas a que Luchino Visconti e Suso Cecchi D’Amico recorrem para dramatizar a decadência de Simone/Renato Salvatori. Ah, sim, agora entendi – e não concordo. Nenhuma das críticas que li faz a mais mínima referência à mise-en-scène de Lasse Hallstrom. São objeções, e nem bem fundamentadas, ao roteiro. Lasse revela o mundo pelo olhar do cão, em suas sucessivas encarnações. Mas, para contar a história do cachorro que busca o sentido da vida (A Dog’s Purpose, título original), ele precisa do olhar dos humanos sobre ele. Essa reciprocidade é que faz a beleza da construção de seu filme. São várias maneiras de narrar cada segmento – comédia teen, romance de aprendizado, policial, drama de maturidade. Me veio agora que, pelos temas sombrios e por seu compromisso com a vida – mesmo quando fala de morte -, o cinema de Lasse Hallstrom poderia ser definido como uma tentativa de dançar no escuro.