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Da série tergiversar, o longo caminho até… Nakadai!

Luiz Carlos Merten

11 Março 2017 | 13h38

Kong, A Bela e a Fera – são o tipo de filmes descartáveis que não me motivam muito. Já falei sobre um e outro no impresso do Estado. Não creio que tenha dado conta da impressão que me causou o rei Kong de Jordan Vogt-Roberts. O cara é maluco, digo, o diretor. Vão me acusar de racismo – eu, não, o filme. Fiquei chocado, mas Vogt-Roberts conta, perdão, a história de dois macacos. É a visão dele, não a minha. Kong e o militar ensandecido de Samuel L. Jackson, que ele filma exatamente do mesmo jeito. Os planos dos olhos, da testa, da boca. E o monstro da história, como sempre, não é Kong, mas o militar. Fiquei pasmo. Jesus! E Bill Condon… Le-Fou, o companheiro de Gaston, é gay de carteirinha. Por que? O gay serve de contraponto ao narcisismo de Gaston, que o próprio Le-Fou reconhece, é o monstro dessa história, não a Fera, embora, inicialmente, o príncipe esteja mais para Gaston que para o humanóide em que se converte. Achei o filme bem legal, menos – olhem o paradoxo – a Bela e a Fera. Emma Watson é sem gracinha e o cara que faz a Fera… Achei a melhor piada do filme (não leiam, porque é spoiler). No baile final, depois que a Fera virou príncipe de novo, Bela lhe pede que deixe crescer a barba. Para ficar hominho? Saudades dos pelos da Fera? Bem disse a Garbo, convidada para assistir à versão de Jean Cocteau, em 1946. A Fera vira Jean Marais, companheiro (na arte e na vida) do poeta/diretor. E Garbo – “Give me back my beast.” Tergiverso. A gente se arrepende do que não faz (ou diz). Em 1995, a Fundação Japão levou um grupo de brasileiros a Tóquio. Rubens Ewald, Inácio Araújo, Carlos Reichenbach, Walter Hugo Khouri, Ana Carolina, Ismail Xavier e eu. Tinha mais gente, um cara que era especialista em cinema japonês, do tempo do Cine Niterói, na Liberdade, que não conheci. Houve um coquetel. Tivemos o privilégio de conhecer o grande Eizo Sugawa. Carlão ficou tão emocionado – era um de seus autores preferidos – que quebrou o protocolo. Abraçou o Sugawa, beijou-o no rosto e os japoneses não são dados a essas efusões de afeto, muito menos por parte de estranhos. No mesmo coquetel estava Nagisa Oshima. Com um kimono que parecia de mulher, bolsa e leque. Kouri me soprou no ouvido – “Será que ele é?” Eu amava o Khouri, a mulher dele, a Nadir. Viajo nessas lembranças porque, anos atrás, tive um sonho que não levei adiante. Queria ir ao Japão entrevistar Tatsuya Nakadai. A Fundação Japão até topou, mas eu teria de ter um contato – um responsável – lá. Teria de localizar essa pessoa ou instituição, costurar todo um acordo. Não tive/tenho paciência. O assunto morreu. Há dois ou três anos, estava em Paris, depois de Berlim, e o Instituto Japonês da França anunciava uma programação especxial em presença de Tatsuya Nakadai. Teria de ficar mais uns dias. Não fiquei. Arrependo-me. Por que Nakadai? Porque é/foi o ator fetiche de Sugawa, de Akira Kurosawa – na fase pós-Toshiro Mifune – e de Masaki Kobayashi. Que me perdoem Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi. Para mim, o maior diretor do Japão foi Kobayashi e o maior filme, Rebelião. Toshiro Mifune perde o filho na luta contra o corrupto chefe do clã. Vai denunciá-lo ao poder central. O cara coloca seu guarda-costas, Nakadai, no caminho de Mifune. Os dois maiores mitos do cinema japonês. Nakadai, preso ao bushido, o código de honra dosa samurais, tem de servir a seu senhor, mas é um homem ético e sabe que Mifune tem razão. Lutam – o maior duelo de sabre do cinema. Nakadai acossa Mifune, mostra-lhe que é o melhor e, depois, recua, deixando-se matar para que o outro siga adiante. Grandeza igual, só a de John Wayne/Tom Doniphom em O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford. Era muito jovem quando vi esses filmes.O de Ford, em 1962. O de Kobayashi, que é de 1967, acho que no ano seguinte. Carrego-os comigo. O post está enorme. No próximo esclareço. Houve uma homenagem a Nakadai no Museum of the Moving Image, em novembro passado. Nakadai, em pessoa, aos 83 anos, assistiu a The Sword of Doom, de Kiahachi Okamoto. Ao se ver nas tela, 50 anos mais moço, exclamou – “What a terrifyng film!” A Film Comment de janeiro/fevereiro dedica duas páginas a esse evento. E a Sight & Sound, também de janeiro, numa seção chamada Rediscovery/Redescoberta, usa o lançasmentyo em Blu-ray de The Human Condition para recolocar em perspectiva o monumental Guerra e Humanidade. A trilogia antiguerra de Kobayashi dura quase dez horas (574 min). Narra, ao longho de três episódios com duração média de 3 horas (cada) a saga de Kagi, interpretado por… Nakadai. É um dos filmes da minha vida. Aprendi a amá-lo com P.F. Gastal, em Porto Alegre. A Mostra bem poderia resgatar esse patrimônio do cinema. Trazer Nakadai a São Paulo – estará com 84 anos em outubro – talvez seja sonhar demais, mas por que não?Vou ter de voltar a esse imenso ator. E a esses imensos filmes.