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Da série ‘o crítico de cinema vai ao teatro’, Amor Imperfeito

Luiz Carlos Merten

12 Março 2017 | 12h33

Passei dos 70 anos, escrevo sobre cinema desde 1966. Já completei meio século nessa função/profissão e admito que ainda não sei o que é o cinema. Tenho minhas ideias, escrevi livros, mas nada me estimula mais do que quando vejo um filme que espicaça minhas certezas. Não sou só eu, claro. André Bazin escreveu uma obra monumental, publicada postumamente, para tentar responder à mais básica das questões – qu’est-ce que le cinéma? Só seus epígonos – que são legião – tomam aqueles postulados ao pé da letra. O próprio Bazin volta e meia admitia gostar de filmes que, por suas ideias, deveria execrar. O que é o cinema? O que é o teatro? Minha ligação com Dib Carneiro, a amizade de Gabriel Villela, grande diretor de teatro, me trouxeram a essa outro meio de expressão, sobre o qual ouso, de vez em quando, escrever. Dib reproduz o que publico no blog, mas só ontem me disse que criou uma série – o crítico de cinema vai ao teatro. Fui ontem ver Amor Imperfeito, produzida pela sobrinha dele, Elisa Carneiro. Não fazia a menor ideia do que ia ver nem quem era o autor. Cesare Belsito. Descobri hoje, pesquisando, que morreu aos 46 anos, de um ataque fulminante do coração. Li que era uma figura carismática, cheia de entusiasmo. Amor Imperfeito é uma peça estranhíssima. Dramaturgia zero. Uma mulher – linda – procura um cirurgião plástico. Ele lhe diz que não há nada para corrigir. Ela lhe faz uma proposta indecente – quer que ele a deixe feia. Como? Bem nascida, bem casada, a protagonista quer se colocar à prova – na vida, no casamento. O médico cede. A vida da mulher rui, a do médico também. Porque ele, o pegador, se apaixona pela mulher feia. A peça é o ó. O diretor é um sem noção. Não racionaliza o texto, não se decide entre comédia e drama. Ou melhor, tenta fazer drama, mas cadê o pathos? Quando o médico psicanalisa a paciente, buscando na família, pai e mãe, a origem de seus problemas, a coisa desaba de vez. Contra tudo e todos, ouso dizer que o ator – a maioria preferiu a atriz – é o único que passa alguma coisa. A peça poderia ser interessante. A desestruturação do médico lembrou-me dois filmes dos quais gosto muito. Woody Allen, Gene Wilder apaixonado pela ovelha, caído na sarjeta em Tudo o Que Você Queria Saber sobre Sexo. Ettore Scola, o soldado pegador, belo como um deus, virando alvo de chacota ao se apaixonar – e degradar – pela mulher mais feia da cidade, e ela resiste aos seus avanços em Crime de Amor. Esse tipo de história não comporta meias medidas. Tem de ser tratado à italiana. Tragicomédia, como em Dino Risi e Scola. Grosseria, como em Mario Monicelli. Ontem ocorreram os problemas normais de uma estreia – atraso, erros. Poderão ser corrigidos, mas eu me pergunto se o erro original não é de concepção? Sou um jornalista de cinema, cheio de dúvidas, que vai ao teatro. Não supervalorizem o que escrevo. Mas está dito.