As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Da série interminável – o horror, o horror (sobre João de Deus, personagem de cinema)

Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2018 | 10h41

Está na capa de Carta Capital. Ela desmascarou João de Deus – a ativista Sabrina Bittencourt, que promete novas denúncias contra outros 13 líderes religiosos, um por mês, no ano que vem. Confesso que o assunto mexe comigo de uma forma visceral. Assisti ao documentário sobre o médium (curandeiro?) e havia ficado impressionado com o que me pareceu sua bondade e dedicação – humana e social. O filme me deu uma dimensão do personagem e agora encaro outra realidade. O cinema como manipulação – como instrumento de mentira? Isso me arrasa. Leio na Carta que João (do Inferno?) e seus acólitos criaram uma rede de intimidação e violência para acobertar seus crimes. Lembro-me de haver visto/ouvido que o cineasta Candé Salles, diretor de O Silêncio É Uma Prece, não quis usar registros de arquivo que teriam mostrado Oprah Winfrey e Naomi Campbell como pacientes de João. Para fazer seu documentário só com imagens captadas por ele, Candé tem de ter ficado um bom tempo na Casa Dom Inácio, em Abadiânia. Agora, no retrospecto, a obra que me parecia tão sincera adquiriu outra conotação. Virou um institucional. Como Candé, investigando ali dentro, não percebeu nada suspeito? E, se percebeu, por que silenciou? Foi convivente? O cinema tem esse lado totalitário muito forte. O fluxo das imagens, por meio da montagem, operam no inconsciente do espectador. Você pode fechar os olhos ou sair da sala, caso contrário estará recebendo a informação. Lembrem-se de Alex recebendo o tratamento Ludovico em A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Busco no cinema o oposto. A verdade, o distanciamento. A emoção me fez cair na armadilha de O Silêncio É Uma Prece. O próprio título é tão bonito. Quando eclodiram as denúncias, cheguei a pensar numa teoria da conspiração. A quem interessariam? Os evangélicos compõem hoje uma força mais que religiosa no Brasil – uma força política. Elegeram, ou ajudaram a eleger, até presidente.
Face aos fatos, não existe conspiração. É tudo tão decepcionante. João de Deus não existia no meu universo. Foi o cinema que o trouxe para mim. Com base no filme´de Candé Salles, comprei gato por leve. Vi o cordeiro, mas era uma pele para encobrir o lobo. De alguma forma, estou em choque.