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Da arte de enganar, ou o que a Latam tem a ver com Nieve Negra

Luiz Carlos Merten

20 Janeiro 2017 | 22h25

De volta ao Brasil. Saímos, Dib e eu, pela manhã de Mar Del Plata, corremos ao Multiplex da Lavalle, em Buenos Aires, para a primeira sessão de Nieve Negra e daí voltamos ao aeroporto, que, no caso, não era Ezeiza, mas o Aeroparque Julio Newbery. O voo da Latam era às 17h35, mas atrasou. Tenho a maior bronca da Tam. Lá atrás, os aviões caiam e a empresa, por um milagre de marketing que nunca pude entender, afirmava-se no mercado. Viajando no outro dia, resolvi ler a revista da Tam, começando pelo recado do presidente. É ‘a’. Em geral, são senhores vetustos. É uma garota, cujo mérito não discuto, mas nova, daquele jeito, só pode ser por herança. Li – tudo muito sério, comprometimento para ter competitividade, prestar bons serviços etc. Coisa de político. Na quinta, em Buenos Aires, o voo atrasou mas até 17h40, cinco minutos depois, aparecia no mostrador ‘On time’. Não é exatamente transparente nem prestar bom serviço, mas era o único voo da Tam e não ficava bem, com todas as demais companhias no horário, dar prova de ineficiência. De qualquer maneira, informar os pobres clientes deveria ser praxe, até pelo discurso de Mlle. presidente. Mas é, como sempre, o f…-se o cliente e é assim que as empresas crescem. Dando uma banana pra gente. Sou do tempo em que o mantra contra o comunismo era ‘defesa do indivíduo’. O Estado totalitário desmantelou-se, entraram os conglomerados – que são piores. A liberdade virou a calça azul e desbotada, mas é como já disse Mr. Trump. As pessoas não querem liberdade, querem segurança. E, por favor, comprem a calça tal. Por favor digo eu. Pra dirigir, criar necessidades, existe a publicidade. Ah sim, caiu o avião do ministro da Lava-Jata. Que coisa, não? Não tenho nenhuma teoria conspiratória sobre o assunto – quer dizer… -, mas Temer agora vai fazer sua primeira nomeação para o STF. Como todo mundo, estou curioso. E talvez apreensivo. Afinal, o Ministério dele não é nenhuma maravilha e alguns ministros, incluindo o da Cultura, são o ó. Mas volto ao assunto. Nieve Negra. O filme é dirigido por Martin Hodara, ex-assistente de Fabián Bielinsky e homem de confiança de Ricardo Darín, com quem codirigiu La Señal, O Sinal. Darín vive isolado numa cabana da Patagônia há 30 anos, desde que foi acusado de provocar a morte acidental do irmão. Darín, principal nome do elenco, é coadjuvante do próprio drama, e o filme constrói-se na perspectiva de Marco, o terceiro irmão, que chega com a mulher, para tentar convencê-lo a vender as terras em que habita (e que valem ouro). Sucedem-se as revelações – escândalos de família. Federico Luppi, o administrador, sintetiza tudo. ‘Pero qué família, che!’ Com um pouco mais de Nelson Rodrigues, o filme ficaria melhor. E também sem a bandeira de Leonardo Sbaraglia, porque quem viu Silêncio do Céu automaticamente desconfia dele. Decepcionei-me com as soluções dramáticas – tudo muito providencial -, mas o filme é bem feito. O que mais me chocou foi descobrir o seguinte. O filme é uma coprodução hispano-argentina. Patagônia? Sairia muito caro. Nieve Negra foi todo filmado em… Andorra! A capacidade que o cinema tem de nos enganar é inesgotável.