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Cova 312

Luiz Carlos Merten

17 de junho de 2015 | 19h16

LOS ANGELES – Às vezes, nem eu acredito. Cá estou, de novo. Cheguei ontem a São Paulo no fim da manhã, vindo do Rio, e à tarde já estava a caminho de Guarulhos, para embarcar de novo. Fiz um roteiro muito louco – São Paulo-Lima, Lima-Los Angeles. Cheguei quebrado, mas, vamos pela ordem – 1) dormi nos voos, como sempre faço; 2) vi o Hacker de Michael Mann com Liam Hemsworth e, já que o filme não será lançado nos cinemas, no Brasil, só isso já teria valido a viagem; e 3) terminei de ler o livro de Daniela Arbex, Cova 312, que havia comprado no aeroporto, no Rio. Daniela é repórter investigativa e escreve livros-reportagens. Amei Holocausto Brasileiro, sobre os milhares de pacientes que, durante anos e sem diagnóstico, foram internados no hospício da cidade de Barbacena, interior de Minas. Alguns, somente por serem diferentes. Acho que meu amigo Dib Carneiro poderia escrever 1001 peças a partir do livro, ou então escrever um roteiro – quando vejo a capacidade dele para criar diálogos e a ousadia dramatúrgica penso cada vez mais no roteirista que o cinema brasileiro está perdendo – para ficar nos anais. Isso não tem nada a ver com afetividade nem proximidade. É um reconhecimento intelectual – do intelectual que sou, desculpem se isso parece presunçoso, pelo intelectual que ele é. De volta a Daniela – gostei muito de Cova 312, que derruba a farsa montada pela ditadura e reescreve um capítulo da história do Brasil ao desvendar o que ocorreu com o guerrilheiro (do Caparaó)  Milton Soares de Castro. A versão oficial foi de que o gaúcho se suicidou em Linhares, penitenciária de Juiz de Fora que virou centro de emprisionamento e tortura de militantes de esquerda que pegaram em armas contra o regime, nos anos 1960 e 70. Durante 35 anos, os militares sumiram com o cadáver – que Daniela encontrou na cova que dá título ao livro. Como explicar? Como repórter investigativa, acho que Daniela ficcionaliza demais em Cova 312. Muita coisa se passa na cabeça dos personagens, monólogos (do próprio Milton) que ela, por haver pesquisado muito, acha que ele pode ter dito, mas são criações ficcionais para compor um personagem. Uma parte de mim acha aquilo discutível como ‘reportagem’, mas outra se exaltou com Cova 312 e eu chorei e me emocionei com o livro. Concordo quando ela diz que a ditadura deve ser lembrada não para falar mais do mesmo, mas para que se possa avançar no levantamento dos casos e na abertura eficiente e efetiva dos nossos arquivos – para que esses babacas que, nos protestos contra Dilma, não fiquem pedindo impunemente o retorno dos militares. Ninguém compra os direitos desses livros? Ninguém vai comprar? Dariam peças e filmes que eu gostaria de ver – como gostaria!