As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Coutinho! e as demais perdas desse fim de semana que parecia de festa

Luiz Carlos Merten

02 de fevereiro de 2014 | 21h11

Não creio que me tenha caído a ficha. Pela manhã, estava em Belo Horizonte, fazendo matérias sobre o encerramento da Mostra de Tiradentes e uma entrevista com a diretora Rebecca Thomas, de A Fita Azul. Queria fazer tudo – dar uma volta pela Afonso Pena, almoçar no restaurante Dona Lucinha. Deu, mas foi tudo corrido, porque às 3 da tarde já tinha de estar no aeroporto e, para chegar a Confins, do Centro de BH, gastamos uma hora de táxi, Dib Carneiro e eu. Estava aflito para chegar a São Paulo e postar sobre as mortes do ator Maximilian Schell e do diretor húngaro Miklos Jancso. Ao chegarmos em Congonhas, havia uma mensagem de Orlando Margarido no celular do Dib – morreu Eduardo Coutinho, e foi morte trágica. Lina Chamie, que também retirava sua mala, assombrou-se e logo se formou um grupinho, com colegas críticos que também regressavam de Tiradentes. Vim diretamente para a redação do Estado. Coutinho foi assassinado no Rio, presumivelmente pelo filho esquizofrênico, que também esfaqueou a mãe. Uma tragédia rodrigueana. O mais incrível é que, na hora, não lembrei do Coutinho de Cabra Marcado nem de Edifício Master ou Jogo de Cena. Lembrei-me do meu primeiro Coutinho, o episódio O Pacto, da coprodução O ABC do Amor, com Argentina e Chile. O bom vivant Reginaldo Farias, para comer Vera Vianna, propõe um pacto de morte, que evidentemente não espera cumprir. Ele e a moça irão para a cama e depois se matarão- pelo menos é que ele diz. A coisa termina em happy end, e Freud deve explicar porque foi disso que me lembrei. Já escrevi no meu texto na capa do Caderno 2 – havia, em Coutinho, uma melancolia, uma tristeza que me intrigava. Nunca o vi rindo, alegre, exuberante. Sorrindo, sim. Percebo agora, pelas circunstâncias que estão se descortinando dessa tragédia, que Coutinho carregava o peso do mundo. E por isso, por conhecer tanto o lado sombrio das pessoas – do filho que o matou -, ele talvez tenha se tornado o admirável entrevistador que era. Escrevi, numa licença poética. João Gilberto só precisava de um banquinho e um violão. Coutinho precisava do banquinho e da câmera para deixar as pessoas à vontade, para que elas se desvendassem e desnudassem em seus filmes. Diante da tragédia, celebrei intimamente a comédia.  Que dia! Houve mais. Em Nova York, Philip Seymour Hoffman foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento, com uma seringa no braço. Tudo aponta para overdose. Era viciado. Internava-se em clínicas de reabilitação, mas reincidia. 46 anos, três filhos com idades entre 4 e 10. Que merda, não? Lembro-me de haver escrito aqui no blog. Tento não ser preconceituoso, mas havia, no físico de Hoffman, alguma coisa que me desagradava. O cara que se masturba em Felicidade, o gay que tenta seduzir o astro pornô de Boggie Nights, o canalha que manda assaltar a joalheria da mãe (e ela morre) e come a mulher do irmão em Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto. Essa repelência que ele me causava servia – sorry – aos personagens e ele foi um magnífico vilão, o melhor da série, em Missão Impossível 3, de JJ Abrams, que não me canso de rever. Hoffman ganhou o Oscar por Capote. O mal que as pessoas fazem, e se fazem. A droga das drogas, o prazer que vira inferno. Maximilian Schell morreu aos 83 anos, Miklos Jancso aos 92. O ator ficou marcado pelo personagem do advogado de defesa dos nazistas de Julgamento em Nuremberg, que lhe valeu o Oscar de 1962. Jancso, nos anos 1960 e 70, era comparado a Michelangelo Antonioni e Glauber Rocha. Seus planos-sequências, milimetricamente encenados em filmes que misturavam a grande e a pequena história – e incluíam cantorias e danças folclóricas -, lhe valeram o prêmio de direção em Cannes, por O Salmo Vermelho. Nunca houve, para Jancso, outro tema que não a história de seu país, a Hungria. Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, cita Passek, O Cinema Húngaro, para dizer que são sempre histórias de fracassos, de assassinatos, de destruição operada pela máquina repressora, seja o Exército, a Igreja ou a polícia. Em seu cinema, os que querem mudar o mundo são massacrados. Infelizmente, não era muito conhecido no Brasil, onde raros de seus filmes tiveram lançamento nos cinemas ou em DVD. Maximilian Schell e Miklos Jancso morreram ontem, Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman hoje. Chega, é demais. Precisamos, eu preciso de uma trégua para assimilar e contabilizar tantas perdas neste final de semana que prometia ser de festa, quando descobri que meu preferido, A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, havia vencido a Mostra Aurora.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.