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Corpos em ebulição

Luiz Carlos Merten

16 de setembro de 2012 | 10h57

Na sexta pela manhã assisti a ‘Os Selvagens’, o novo Oliver Stone, para poder entrevistar o diretor. Na verdade, assisti a ‘Savages’, em versão original, sem legendas, numa cabine para publicações mensais. Confesso que ainda estou deglutindo o que vi, e me impactou. Gostei de ter visto o filme, mas não sei se ‘gostei’. Entendem? Há coisas deslumbrantes e outras que quase me fizeram vomitar, como em duas oportunidades o próprios personagens, de ambos os lados em disputa, vomitam em cena. Aaron Johnson e Taylor Kitsch são os garotos dourados da Caslifórnia que, na guerra do Iraque, na campanha do Afeganistão, descobrem a papoula. É curioso que Strone tenha substituído a Guerra do Vietnã, que é o mito fiundador do seu cinema, pela do Iraque, mas a atualização obrigou-o. Os garotos fundam um próspero negócio de drogas na Califórnia. Formam um trio com Blake Lively. Que gente mais bonita, pelamor de Deus! Fazem sexo a três, e Stone não se furta a fazer referências a ‘Butch Cassidy’. Quem nunca curtiu ‘Raindrops Keep Fallin’ on My Head’ que atire a primeira pedra. Butch, o Sundance e Etta Place naquela bicicleta. Jules e Jim, menos pelo triângulo do que pelo sentimento, que George Roy Hill compartilhava com François Truffaut, sobre as coisas mortas que permanecem vivas na lembrança e as vivas que já começam a desaparecer no nosso imaginário. O trio, Aaron, Taylor e Blake, desafia o cartel de Tijuana, a madrina Salma Hayek, cujo lugar tenente, Benicio Del Toro, é o maior de todos os selvagens. Curioso que o Che de Steven Soderbergh tenha virado esse monstro. Alguns diriam que já era, he-he. Mas o que me interessa aqui é o sexo, as cenas de cama de Aaron, Blake e Taylor. São fluidas, plásticas. Não é de hoje que Stone filma bem, mas monta melhor ainda. Corpos como objetos de desejo. As delícias do voyeirismo. Corte para Diogo Nogueira. Não – corte para um bar e restaurante da José do Patrocínio em Porto Alegre, segunda metade dos anos 1970. Chamava-se Panorama, não o Panorama era outro. Era a época em que namorava a Cíntia, a gente vivia naquele bar. O pai de Diogo, o grande João Nogueira, fornecia a trilha da casa (em disco). Depois de tanto ouvir o pai, descobri o filho. Diogo tem voz, tem ritmo, samba no pé, arrisca a gafieira – o público vem abaixo quando o malandro joga a mulher para trás, ela voa no palco e vai aterrissar nos braços do astro, hu-hu -, mas ele é principalmente um corpo. Entra no palco e instantaneamente vira objeto de desejo de sua plateia feminina. Nenhuma mulher joga a calcinha no palco, como faziam para o lendário Wando, mas, com todo respeito, boa parte do público feminino de Diogo Nogueira alegremente tiraria a calcinha para ele. Confesso que me encanta, é o meu lado voyeur, essa onda de sensualidade. O show tem um belo cenário de Havana, uma trilha com ecos de ‘Buena Vista Social Club’, mas termina, ‘O que é, o que é?’, com Gonzaguinha. O mesmo fecho de ‘Totalmente Inbocentes’. O que me leva ao próximo carnaval. Nos últimos anos, o carnaval tem batido com a Berlinale e eu tenho ido para o frio. Em 2013, a terça-feira gorda é 12 de fevereiro e Berlim começa na sequência. Jantamos ontem na casa de Leila Reis – Fátima, Ocimar, Dib Carneiro, Leila e eu. E já começamos a fazer planos para o carnaval. Vai dar para conciliar com a Berlinale. Aleluia!

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