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Corpo Elétrico faz retrato forte do Brasil

Luiz Carlos Merten

28 Julho 2017 | 12h35

Preocupado em dar conta do barraco na abertura do Festival de Cinema Latino-americano nada escrevi nem falei sobre o filme escolhido para a ocasião. Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, não terá nova exibição no evento porque já estreia em 10 (ou 17) de agosto. Ando numa fase de reler Jorjamado. Esse Marcelo é porreta. Após a vaia – Jotabê Medeiros estabeleceu um ranking das maiores vaias do País e a de André Sturm é primeira, disparada -, Marcelo subiu com seu povo para o pódio. ‘Agora, as bichas, as trans…’ Branco já falou demais aqui, e ele deu o microfone para seu ator. Negro. Confesso que me emocionei. O filme conta a história de um hedonista. Um jovem – gay e talentoso, talentoso e gay – que trabalha numa confecção do Bom Retiro. Sexo, sexo, sexo. Numa cena, o dono da fábrica pergunta como ele se vê dali a cinco anos. Ele não se vê. O patrão faz um discurso de que não é bom misturar vida pessoal e profissional, sexo e amizade no trabalho, mas nosso garoto não se vexa. Boiar (na água do mar) vira metáfora da sua situação no mundo. Não sei direito como responder a uma situação dessas porque sou de um tempo em que a gente acreditava mais no comprometimento, na transformação. Deu no que deu, é verdade. Certamente existem muitos jovens como o protagonista do filme de Marcelo. Um trabalhador que circula pelo underground. Como disse o diretor, ‘não quero que me aceitem – quero que me amem’. O sexo mexeu menos comigo do que esse sentimento de estar à deriva. E, como se trata de um homossexo, imagino que o filme possa provocar – o quê? Polêmica? Rejeição? – nesse momento de retrocesso. É importante, de qualquer maneira. E, embora talvez não seja exatamente sobre isso, Corpo Elétrico termina por retratar as novas relações/condições de trabalho. E o garoto, o ator principal, é muito bom. Parei para pesquisar o nome. É Kelner Macêdo. Disse que estou relendo Jorge Amado. O livro da vez é Teresa Batista. Estou na fase em que Justiniano, o Capitão Justo, negocia com a cafetina – Veneranda – as menininhas que adora descabaçar. Teresa é uma delas, mas não chegou à cama do Justo através de Veneranda, e sim da própria tia. Veneranda volta e meia tenta enganar o capitão, oferecendo-lhe gato por lebre, ou seja, garotas que não são mais virgens. Ele ameaça arrebentar, fechar o negócio dela. O que me leva a José Simão. Há tempos que não o lia. Ontem, a página estava aberta. Buemba, buemba. A cafetina que quer consertar o Brasil, porque, afinal, de bordel ela entende. O problema é que o Capitão (in)Justo, e vocês sabem quem é, também entende. No atual comando do Brasil temos um coronel que sabe como incentivar suas tropas de cheque. Tenho tido um prazer imenso em reler Jorge Amado. Um pouco menos ao constatar o estado do Brasil, mais que o do mundo. Li o livro do Paulo Moreira Leite sobre a Lava-Jato. Como uma operação necessária se tornou uma ameaça à democracia. Pior. Não serviu nem para inibir o funcionamento do bordel. Talvez tenha regularizado. O negócio segue próspero.