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Coração de estudante

Luiz Carlos Merten

10 Setembro 2013 | 23h07

Minha colega Leo me lembrou que amanhã se completam 12 anos do ataque às torres gêmeas. Me veio de imediato outra data, e é redonda – 11 de setembro de 1973. O golpe militar no Chile, a morte de Salvador Allende. 40 anos! Depois de amanhã farei 68 anos. Tinha 28 na época e apenas um mês antes, Dóris e eu havíamos passado nossas férias de julho no Chile. O clima já era de derrocada, uma esquerda radical queria pegar em armas, mas Allende permanecia constitucional e legítimo, como sempre foi. Comentei com meu colega e editor – Ubiratan Brasil, o Bira – e ele me repassou, por e-mail, cópia do texto de Antonio Skármerta, sobre esses 40 anos, que o Estado publica amanhã. É de uma beleza e acuidade que me comoveu. Skármeta analisa porque Pinochet passou e Allende permanece. Foi como se toda a minha vida, não apenas as quatro últimas décadas, passasse por meus olhos. Chego quase aos 70 anos com meu coração de estudante. Milton Nascimento há de me perdoar pela apropriação. Quero falar de uma coisa/Adivinha onde ela anda/Deve estar dentro do peito/Ou caminha pelo ar/Pode estar aqui do lado/Bem mais perto que pensamos/A folha da juventude/É o nome certo desse amor… Como todo mundo, tenho altos e baixos na vida, alegrias e sofrimentos. Diria até que tenho motivos para ter mais sofrimentos, mas não é verdade. Sob múltiplos aspectos, tenho sido até abençoado, iluminado, fazendo o que gosto, cercado pelo carinho dos amigos. Como Elia Kazan, poderia dizer que não fiz tudo o que gostaria nem gosto de tudo o que fiz, mas aqui estou eu, com meus defeitos, e alguns, os físicos, são bem evidentes. São os que menos importam, talvez. Meu maior mérito…? Para mim, é manter a alegria e a fé. Só se me arrancarem o coração do peito vou desistir de sonhar com um mundo melhor e mais humano, mais igualitário e generoso. Há tantas injustiças nesse mundo. As pessoas são induzidas a pensar maciçamente. Antes, se fazia isso em nome do comunismo; hoje, de uma democracia que é pouco demos e muita cracia. Ler o livro de Paulo Moreira Leite sobre o mensalão me deu outra perspectiva, outro entendimento, e ferramentas para entender o jogo de manipulação e poder da própria informação no País. Imagino que vá ser execrado por esse post. Pode ser. Amanhã volto ao assunto cinema. Tanta coisa para escrever. Acabo de receber o pacote de Yasujiro Ozu da Versátil. Três discos, cinco clássicos do mestre minimalista. Amanhã… Hoje quero lembrar que Allende sobreviveu à própria morte e, em frente ao palácio em que foi atacado com aviões, das ruínas que deveriam tê-lo sepultado, e a seu sonho, ergue-se a estátua com aquele passo no ar, rumo ao futuro que espero que chegue um dia. É outra falha congênita. Meu coração de estudante – Já podaram seus momentos/Desviaram seu destino/Seu sorriso de menino/Quantas vezes se escondeu/Mas renova-se a esperança/Nova aurora, cada dia/E há que se cuidar do broto/Pra que a vida nos dê flor/flor e fruto.