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Coppola e o final cut, ‘Existem dois, o que ama e o que mata’

Luiz Carlos Merten

16 de julho de 2020 | 21h02

Não dei conta de que, no domingo e na terça, voltei ao Drive-in Belas Artes, no Memorial, para ver Cinema Paradiso e Apocalypse Now Final Cut. Confesso qe a vontade de rever o Giuseppe Tornatore estava muito ligada ao livro com suas conversas sobre filmes e trilhas com Ennio Morricone, que andei citando por ocasião da morte do compositor. Morricone tem um filho que também compõe, Andrea, e o tema de amor de Cinema Paradiso é dele. Achei muito bonito o colóquio com a mãe, quando Totò, adulto – Jacques Perrein -, volta a casa para o enterro do projecionista e tem aquele diálogo com a mãe. Difícil não pensar em Pirandello, o Colóquio com a Mãe de Kaos, dos irmãos Taviani, ou em Sicília!, de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, basaeado em Elio Vitorini. Já o Coppola… Tenho sempre sentimentos contraditórios, ambivalentes, por Apocalypse Now. Certamente não é o ‘meu’ Coppola. O Final Cut bate nas três horas. O filme tem grandes cenas, momentos de antologia, etc e tal, mas eu sempre duvido um pouco que Coppola tenha conseguido realizar o grande painel de decadência moral da ‘América’ que queria. É a tese dele – quando os EUA resolveram incinerar o Vietnã com napalm, após a ofensiva do Tet, já tinham se convencido de que não conseguiriam ganhar a guerra dos vietcongues. Coppola, e isso é mais que sabido, baseou-se no livro de Joseph Conrad, O Coração das Trevas, que é considerado o grande romance masculino do século 19. Lá atrás, Orson Welles já havia pensado em adaptar o Conrad. Não conheço o roteiro dele, nem sei se foi referência para o cineasta, mas ao rever Apocalypse Now fiquei o tempo todo pensando que aquela narrativa em off não poderia ser mais wellesiana. Na versão de Welles – nunca realizada -, até onde sei Willow, que deve matar Kurtz, é o duplo dele. Com Coppola, Willow vira Willard e se questiona sobre o por quê de matar o coronel. Afinal, ele enlouqueceu, criou um Exército de renegados no Camboja, mas não é mais louco do que Kilgore, promovendo a destruição para poder surfar naquelas ondas. Durante todo o tempo, não apenas Kilgore, mas outros oficiais e até soldados, referem-se aos viets como ‘selvagens’, mas os selvagens são os norte-americanops. A derrrocada moral – Kurtz, para Coppola, representa a consciência. Quando conta a história dos vietnamitas que arrancaram braços das criancinhas – o horror,o horror -, ele fornece a pova da invencibilidade do ‘inimigo’. Acho tudo isso muito impressionante, mas o excesso me incomoda. A megalomania é de Coppola. O apocalipse é do cineasta. A própria cena dos franceses, que não havia na versão de 1979 e foi acrescentada na de 2001, me pareceu meio didática e a insistência de Roxanne/Aurore Clément, até repetindo a frase para Willard (‘Há dois em você, o que ama e o que mata’, e depois ‘Você é um animal e é um deus’) é sobre quem? Kurtz? Meio óbvio para tanta pompa e circunstância. E Kurtz – “Você precisa de homens que sejam morais e ao mesmo tempo que liberem seus instintos e matem sem remorso, sem julgamento. Because it’s the judgement that defeat us.” Estava querendo acrescentar esse post há dias. Amanhã faço minha anunciada cirurgia. Há de correr tudo bem, e eu voltarei. I’ll be back.