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Coppola, 80 anos, o apocalipse de um cineasta

Luiz Carlos Merten

06 de abril de 2019 | 09h48

Francis Ford Coppola completa amanhã 80 anos. 80! E recebe duas vezes a mesma homenagem. O Telecine Cult e o MIS, com uma hora de diferença – 12h25 no primeiro; 13h30 no segundo – apresentam, completa, a trilogia do Chefão. Coppola já era um diretor estimável, talentoso, mas seguia uma trajetória errática. Nunca vi seu primeiro filme, Os Amantes do Nudismo, mas tendo sido protegé de Roger Corman era natural que incursionasse pelo terror, Dementia 13. Contemporâneo de A Primeira Noite de Um Homem, fez o seu ‘graduate’, mas por mais encanto que tenha Agora Você É Um Homem não obteve o mesmo sucesso. Guardo ótima lembrança de Bernard Chantecler, o personagem de Peter Kastner, às voltas com a mãe possessiva (Geraldine Page, quem mais, em 1967?), descobrindo a metrópole e seduzido pela mítica Barbara Love (Elizabeth Hartman, que se matou). Tudo isso ao som de Lovin’ Spoonful, cantada por John Sebastian. Vieram depois o musical O Caminho do Arco-Íris, com Fred Astaire e Petula Clark, e o filme de estrada Caminhos Mal Traçados, com Shirley Knight, James Caan e Robert Duvall, e os dois seguiram com Coppola quando foi escolhido para dirigir O Poderoso Chefão. A adaptação do best seller de Mario Puzo foi outra cartada de mestre de Robert Evans, o executivo da Paramount que já colhera um sucesso monumental com Love Story. Ao contrário do que muita gente pensa, não foram George Lucas e Steven Spielberg que inventaram os filmes eventos. Evans planejou e executou Love Story e o primeiro Chefão, mas deu-se mal com a adaptação de O Grande Gatsby por Jack Clayton (e Coppola, que foi um dos roteiristas). Conta a lenda que o jovem Coppola – 33 anos – ganhou a confiança do produtor Albert Ruddy, que lhe deu carta branca para fazer o filme inclusive mais violento do que inicialmente previsto. A luta pelo poder numa democracia étnica, em que irlandeses e italianos vivem em guerra, uma prodigiosa lição de cinema narrativo, a presença de Marlon Brando (que precisou fazer teste para o papel), tudo convergindo para o batismo de sangue, para fazer jus ao título original – The Godfather, O Padrinho -, quando Michael Corleone (Al Pacino) elimina seus inimigos e se estabelece como capo. O Poderoso Chefão venceu os Oscars de filme, roteiro (Coppola e Puzo) e ator (Brando) em 1972. Dois anos depois veio O Poderoso Chefão Parte 2 e aí foram seis Oscars, incluindo filme, direção, roteiro (Coppola e Puzo, de novo), ator coadjuvante (Robert De Niro) e score (Nino Rota e Carmine Coppola, pai do cineasta). Um relato em dois tempos – no passado, Vito Corleone, imigrante pobre, chega a Nova York e inicia sua trajetória para ser chefão na Máfia; no presente, Michael (Pacino) promove outro banho de sangue para manter sua liderança indiscutida. As cenas mais impressionantes ocorrem em Cuba, sob a ditadura de Fulgencio Batista, então um quintal dos EUA. Os mafiosos reúnem-se numa comemoração e partilham um bolo, com a forma da ilha. Mas vem a revolução de Fidel Castro e a farra termina. Passaram-se os anos. Coppola ganhou a Palma de Ouro com A Conversação, de novo a Palma de Ouro com Apocalypse Now, fez O Fundo do Coração, inovando tecnologicamente e incorporando o vídeo, fez O Selvagem da Motocicleta e, em 1990, o Chefão 3. O roteiro, também escrito com Puzo, pega carona no escândalo do Banco do Vaticano, o Ambrosiano, e especula sobre as ligações entre a Igreja e a Máfia, cujo dinheiro sujo lava. Michael Corleone adquire respeitabilidade sem abrir mão de seus métodos criminosos e violentos, e o filme termina com outro banho de sangue, outra montagem paralela, na cena da ópera. Só que dessa vez a violência atinge Michael no mais íntimo do seu ser – como pai. Em meados dos anos 1980, Coppola teve de enterrar o filho Giancarlo, que morrera, aos 22 anos, num acidente de lancha. Winona Ryder seria a filha de Michael, mas, em cima da hora, teve de ser substituída – por Sofia Coppola. Imaginem a dor do pai artista ao ter de filmar o desenlace do drama, o que ocorre com a personagem de Sofia. Os críticos a massacraram, como ao filme, que é grande. Sofia, durona, sobreviveu, mas desistiu de ser atriz para virar diretora prestigiada, talvez até demais. E o Chefão 3 fecha, dramaturgicamente, um ciclo. O idealista Michael do primeiro filme corrompe-se e vira um trágico e solitário Rei Lear. Fecha-se outro ciclo, também, mais simbólico, porque o bebê, na cena do batismo, no primeiro filme, já era Sofia. Talvez o fecho do Chefão 3 tenha sido uma forma de Coppola exorcizar a morte de Giancarlo e refletir sobre o significado daquela perda. Até hoje ele chora a morte do filho querido. Pessoalmente, sempre vi, na música de Nino Rota, na construção do idealismo do jovem Michael, uma ponte com Rocco e Seus Irmãos. Tive a oportunidade de perguntar isso a Coppola numa entrevista que me deu em São Paulo. Ele me disse que não, nunca pensara, mas aí parou, e acrescentou. ‘Agora, você me deu o que pensar.’ Foi um dos momentos privilegiados da minha vida de jornalista de cinema. Dei o que pensar ao grande Coppola. Os especialistas em comunicação dizem que, na internet, textos sem fotos não são lidos. Eu ainda faço esses posts enormes. O curioso é que alguns – quantos? – leem, e até comentam comigo depois. Espero que estejam lendo. Por Coppola. Nesse dia tão especial para mim – vejam o post anterior -, debruçar-me sobre sua obra de grande diretor é uma inspiração. Como artista, como homem, ele viveu verdadeiros apocalipses. O que não nos destrói nos torna fortes.

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