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Conversa de júris, e festivais

Luiz Carlos Merten

10 de julho de 2019 | 13h07

Já fiz parte de júris, e sei como é difícil arrancar, de grupos heterogêneos, escolhas consensuais. Tive uma boa experiência em Brasília, quando premiamos o Edgard Navarro, mas a volta a Brasília, há três anos, foi traumática. É possível que esse post, pelo tom que está tomando, me crie problemas, inimizades, não maiores do que as que já tenho. Neste final de mês tem Cine PE. Sempre gostei do festival, do público, dos debates. No ano passado não fui, por causa do joelho. No ano anterior, havia sido aquele horror – o festival boicotado pela crítica e por autores de esquerda, a vitória do documentário O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, sobre o sinistro Olavo de Carvalho – o ‘bruxo’ brasileiro. Mesmo num ano tão difícil, com a direita, no pós-impeachment, triunfante, os debates de curtas foram estimulantes. A questão da representatividade. Mulheres, negros, trans. Tenho cá comigo que, até nos anos em que a seleção é boa, o problema do Recife muitas vezes tem sido o júri. Em 2016, Luiz Rosemberg Filho, concorrendo com o genial Guerra do Paraguay, conseguiu um prêmio especial – pelo conjunto da obra, não pelo filme! -, e o Calunga foi para o documentário Danado de Bom, sobre um parceiro um tanto esquecido de Luiz Gonzaga. Não nego que Danado de Bom tenha seu mérito, mas nada que se compare ao visceral Rosemberg. O aflitivo Jardim venceu duplamente, com os votos do júri oficial e do público. Tudo bem que a crítica tem um olhar diferenciado e suas escolhas podem ser particulares – em Brasília, 2016, meu favorito venceu o prêmio da Abraccine -, mas a disputa, no Recife, ideologizada, não tem favorecido os melhores. (No ano passado, não sei, não estava lá para conferir.) Outro Cine PE está pintando no horizonte, outra seleção, com um novo curador. Os seis longas nacionais selecionados para a mostra competitiva são as ficções Um e Oitenta e Seis Avos, de Felipe Leibold, do Rio; Abraço, de DF Fiuza, da Bahia; e Teoria do Ímpeto, de Marcelo R. Faria e Rafael Moura, do DF, mais os documentários Espero Tua (Re)Volta, de Eliza Capai, de São Paulo; O Corpo É Nosso!, de Theresa Jessouroun, do Rio; e Vidas Descartáveis, de Alexandre Valenti e Alberto Graça, também do Rio. Não sei se conseguirei ir, tenho médico no dia 17, vamos ver como anda minha recuperação. O problema é que, em 2017, muita gente – amigos – não foi, e apesar da acolhida terminei me sentindo sozinho, isolado. Como será em 2019? O Brasil ainda não se reconciliou, não sei se um dia vai se reconciliar. Continua dividido. Festivais refletem o calor e a urgência do momento, mas também têm compromisso com a história. Não é um diretor que eu consideraria acima de suspeita, mas adoro o discurso de Michael Moore no trailer de Bacurau, já viram? A arte contra a barbárie. Muito bom.