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Contra o esquecimento

Luiz Carlos Merten

18 Março 2017 | 12h40

Havia deixado interrompido o seguinte post – há dias tento emplacar um texto sobre Hiroshima Meu Amor, que reestreou na quinta, 9, em versão restaurada. É um dos filmes de minha vida. Revi-o em Cannes Classics, em maio de 2013, em presença de Emmanuelle Riva. Alain Resnais, debilitado, não pôde comparecer à sessão, e morreria em março do ano seguinte. Emmanuelle morreu em janeiro deste ano. Foram-se todos. Resnais, Emmanuelle, Eiji Okada, Marguerite Duras, Sacha Vierny, Micvhio Takahaschi, Giovanni Fusco, Georges Delerue, Henri Colpi etc. O filme continua vivo – cada vez mais. O post terminava aqui. Não sinto necessidade de levá-lo adiante porque o texto foi, afinal, publicado no Caderno 2. Hiroshima! Qui es-tu/tu me tues/tu me fais du bien… Resnais! Lembrei-me de uma (in)confidência que me fez Nicole Garcia. Na época de Meu Tio da América, ela teve um affair com o grande diretor. Esteve a ponto de se converter em sua mulher. Viu seu Alain direcionar-se para Sabine Azema. Saiu de cena, porque tinha a própria vida, os próprios sonhos e não queria viver à sombra do grande homem. Mas senti, enquanto ela me contava, uma melancolia. O que é o cinema? A jovem Emmanuelle na sua bicicleta, cabelos ao vento, correndo em direção ao soldado alemão. E aquela trilha leve. On faisait l’amour partout. E o lamento – Ah, que j’ai été jeune un jour… Petite coureuse de Nevers, je te donne à l’oubli. O curioso é que, de alguma forma, estou viajando nas lembranças e completando o post. E ontem, 17 de março, ao preencher um cheque, dei-me conta. Em 1976, há 41 anos, morria Luchino Visconti. Os filmes de minha vida – Rocco e Seus Irmãos, Hiroshima, A Primeira Vitória (Otto Preminger), Rastros de Ódio (John Ford), Terra (Dvjenko). Toda a minha vida nunca construí uma teoria do cinema – para quê? Para limitar meu olhar? -, mas sempre me deixei levar, ajustando-me ao que cada um desses filmes, e outros que também amo, me dão.