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Contemplação e beleza, uma jornada sentimental

Luiz Carlos Merten

05 de novembro de 2017 | 15h19

Jantamos, na quinta-feira, Dib Carneiro e eu, com Orlando Margarido e na sexta com a Cecília Barroso, de Brasília. Cecília! Era o nome de minha mãe. Orlando nos chamou para ver Alair, que, curiosamente, era o nome de minha ex-sogra, mãe da Dóris. Alair encerra temporada neste domingo, no Teatro Nair Bello, no Shopping Frei Caneca. ‘Alair’ é Alair Gomes, engenheiro, filósofo, crítico de arte e fotógrafo. O texto de Gustavo Pinheiro e a montagem de César Augusto contemplam o artista. Contemplação e beleza, a jornada sentimental de Alair Gomes. Edwin Luisi é quem faz o papel. Alair é gay, fotografa homens pelados. Tenho até medo de falar (mal) porque me arrisco a ser integrado a esse reacionarismo ululante que ameaça dominar o Brasil e o mundo. Mas eu confesso que esses temas da ‘beleza’ e da ‘perfeição’ (física) andam me aborrecendo. Ontem, ainda por cima, estava tocado pela experiência do casal de Depois Daquela Montanha, tentando sobreviver. Posso, eu mesmo, argumentar que se trata de outro tipo de sobrevivência, outra busca – a de Alair -, mas não me tocou. Durante muito tempo – sempre? – o corpo da mulher foi liberado para contemplação. No pós-feminismo, as mulheres estão chiando. Cansaram-se de ser objetos. O corpo masculino foi sempre tabu. o côncavo e o convexo. O sexo da mulher é para dentro, o do homem está à vista. Tamanho vira poder. Alair, a peça, o personagem, tem uma frase que a plateia acha divertida – ele diz que muitas vezes encontra vírgulas onde gostaria de trombar com pontos de exclamação (o sexo do macho). Tive a mesma insatisfação com o Pendular de Júlia Murat. Aquele casal de artistas isolado, criando. Escultura, dança. A beleza dos corpos, a perfeição. E, aí, a ação saía de dentro do estúdio e a primeira coisa que se via do mundo ‘real’ era o cara sem braço. Merda! Aqui também tem os corpos perfeitos. Dos homens. No mundo, no País em que vivemos, estamos chafurdando na imperfeição moral, em que tudo está sendo tolerado, em nome da economia – da satisfação dos empresários -, para manter nosso ‘Drácula’, quero dizer, o Drácula deles, no poder. O de-leite (o danoninho!), na peça, é discutir o peito, a linha que ondula descendo para a virilha, onde começam todos os prazeres. Sorry, mas não tenho muita paciência, não. E o espetáculo não transgride. Edwin, o personagem, baba mas não beija, nem pega, o que até Hollywood tem feito. Por um momento breve vi interesse. É quando um dos garotos volta e Alair já preencheu a vaga, porque tem sempre de ter um bofe gostoso de plantão. O texto edulcora o que é insaciabilidade. Ali, por um breve instante, senti a humanidade (do outro) naquele vazio travestido de amor à arte. Creio que seria o tema ‘pasoliniano’. Aquilo que Luiz Nazário, num texto sobre Porcile, há muitos anos, estabeleceu como paradigma, e me desculpem porque vai ser punk. Os orifícios fumegantes da Terra e os cus pulsantes de desejo. Enfim, hoje é o último dia de Alair. Vão lá ver. Eu já vi e, mesmo não tendo me impressionado, acho importante que ocorram essas manifestações. Vou almoçar e depois vou ao jornal. À noite, Cinesesc! Para ver o vencedor da Mostra, O Pacto de Adriana.